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Sunday, September 16, 2018

NA PRIMEIRA PESSOA -- PARTE 4 -- O JOVEM ESPECIALISTA

 



NA PRIMEIRA PESSOA
Parte 3  

O Estudante Universitário


PARTE 4
O JOVEM ESPECIALISTA

Depois de um período de contra-espionagem com alguns membros intransigentes da linha dura, Putin é enviado para o Andropov Red Banner Institute, em Moscovo, para treino adicional. Os polícias apercebem-se rapidamente do estagiário inteligente e imperturbável. Ofereceram-lhe um lugar na mais cobiçada das divisões: espionagem estrangeira. Entretanto, ele conhece uma hospedeira de bordo deslumbrante, Lyudmila. Impressiona-a com bilhetes de teatro difíceis de obter para três noites, adquiridos através das suas ligações com a KGB. O namoro dura três anos. Casam-se e são transferidos para a primeira missão de Putin no estrangeiro: Dresden, na Alemanha Oriental.

V.P.:No início, designaram-me para a Secretaria da Directoria e depois para a divisão de contraespionagem, onde trabalhei durante cerca de cinco meses.
Foi como imaginou que seria? O que estava à espera?
Não, claro que não era como eu imaginava. Afinal, acabara de chegar da universidade. E, de repente, estava rodeado por funcionários idosos que tinham trabalhado durante aqueles momentos inesquecíveis. Alguns deles estavam quase a reformar-se.
Certa vez, um grupo estava a elaborar um cenário. Fui convidado para participar na reunião. Não me lembro dos detalhes, mas um dos agentes veteranos disse que o plano deveria ser seguido de tal e tal forma. E eu disse: “Não, não está certo”. “O que é que está a dizer?” perguntou, voltando-se para mim. “É contra a lei”, respondi. Ele foi apanhado de surpresa. “Que lei?” Eu citei a lei. “Mas temos instruções”, retorquiu. Citei mais uma vez essa lei. Os homens na sala pareciam não compreender o que eu estava a referir. Sem um laivo de ironia, o funcionário idoso disse: “Para nós, as instruções são a lei prevalecente.” E era assim. Foi dessa maneira que eles foram criados e foi assim que funcionaram. Mas, eu não podia, simplesmente, fazer as coisas dessa maneira. E não era só eu. Praticamente todos os meus colegas sentiam o mesmo.
Durante vários meses, examinei minuciosamente as formalidades e derrubei alguns casos. Fui enviado para treino de agente durante seis meses. A nossa escola em Leningrado não era demasiado notável. Os meus superiores acreditavam que eu havia dominado o básico, mas que precisava de alguma preparação no terreno. Então, estudei em Moscovo e depois regressei a Petersburgo, para uma divisão de contra-espionagem, durante cerca de meio ano.
Em que ano?
Em que ano? Foi no final da década de 1970. As pessoas dizem agora que foi quando Leonid Brezhnev começou a apertar o cinto. Mas não se notava muito.
Aderiu ao Partido Comunista enquanto estava no KGB?
Para aderir aos serviços secretos tinha de ser membro do partido. Não havia excepções. Essa regra dava origem a episódios estranhos. Por exemplo, se uma pessoa tivesse trabalhado numa unidade de segurança durante menos de um ano e fosse transferida para outra unidade. No período intermédio, estava fora da alçada do Komsomol. Era impossível admiti-lo no partido porque ninguém podia conceder-lhe uma recomendação. Para receber uma recomendação, deveria ter trabalhado numa unidade durante, pelo menos, um ano. Portanto, ninguém conhecia essa pessoa durante um período de um ano, portanto, ninguém poderia recomendá-lo para ser membro do partido. Não podia ser admitido no Komsomol devido à sua idade e não podia ser incorporado no partido. Um funcionário dos serviços secretos tem de ser membro do partido, então ele era demitido do serviço. É ridículo, mas é verdade.
Dizem que as pessoas da segurança não gostavam dos nomeados do partido.
É verdade. Os nomeados pelo partido não eram apreciados. As pessoas que se filiavam nos serviços secretos, depois de serem funcionários do partido a tempo inteiro, revelavam-se invariavelmente boas para não fazer nada, preguiçosas e carreiristas. Havia todos os tipos, mas eles geralmente tinham egos inflados. Foram transferidos imediatamente de algum posto de nível médio dentro do partido, para um posto de destaque no KGB. Imaginavam-se apenas como grandes directores e não queriam ser operacionais. Claro que causaram sempre ressentimento entre os profissionais.
Quais eram as outras coisas que causavam ressentimento entre os profissionais?
De facto, sei que eles se ressentiram quando os artistas não estabelecidos foram importunados. Em Moscovo, eles usaram escavadeiras para destruir as pinturas. Ainda não compreendi quem teve essa ideia. Talvez algum membro de um departamento ideológico das comissões regionais ou centrais do partido. O KGB desaprovou, dizendo que era algo estúpido de se fazer, mas um indivíduo do departamento ideológico da Comissão Central, em Moscovo, adoptou uma atitude firme, por razões que não consigo entender. Penso que ele era apenas conservador. E como o KGB era uma divisão altamente conceituada do partido, eles tinham de fazer o que o partido lhes dizia.
Será que pensava da mesma maneira?
Para o melhor ou para o pior, nunca fui um separatista. A minha carreira estava a orientar-se bem. Mas você sabe, muitas acções que as nossas autoridades judiciárias começaram a fazer desde os anos 90 eram absolutamente impossíveis naquela época. Eram mais rigorosos. Vou dar-lhe um exemplo. Vamos dizer que um grupo de dissidentes estava a reunir-se em Leningrado, para algum tipo de protesto. Vamos dizer que estava programado para coincidir com o aniversário de Pedro, o Grande. Geralmente, os dissidentes em Peter programavam as suas demonstrações para coincidir com essas datas. Também gostavam dos aniversários dos dezembristas

Sunday, July 15, 2018

NA PRIMEIRA PESSOA -- PARTE 3 -- O ESTUDANTE UNIVERSITÁRIO

 





PARTE 3
O ESTUDANTE UNIVERSITÁRIO 
Putin estuda afincadamente na universidade, mas ainda consegue tempo para atravessar Leninegrado no seu carro Zaporozhets e competir em torneios de judo. Durante o verão trabalha na construção civil com os seus amigos. Tem romances e separações, mas a sua paixão primordial permanece intacta: encontrar um caminho para o KGB.
Foi difícil entrar para a universidade?
Sim, foi, porque havia 100 vagas e apenas 10, estavam reservadas para alunos do ensino médio. O resto era para o pessoal do exército. Portanto, para nós, os do secundário, a competição era dura; algo como 40 alunos para cada vaga. Tive um B em composição, mas A em todas as outras disciplinas e fui aceite. A propósito, nessa época, não tive em consideração a média total do candidato. Portanto, no 10º ano, pude dedicar-me completamente às disciplinas que tinha de passar para entrar na universidade. Se não tivesse posto de parte as outras disciplinas, não teria entrado.
Graças a Deus,tínhamos professores muito inteligentes com tácticas duras, na nossa escola. O seu principal objectivo era preparar os alunos para entrar na Faculdade. Logo que perceberam que eu não ia ser químico e que queria seguir humanidades, não interferiram. De facto, foi o contrário, eles aprovaram.
É evidente que estudou aplicadamente na universidade, tendo em vista o seu futuro?
Sim, estudei arduamente. Não me envolvi em actividades extracurriculares. Não era um funcionário Komsomol.
A sua remuneração era suficiente para cobrir as suas despesas básicas?
Não, não era suficiente. Ao princípio, os meus pais tiveram de me ajudar. Eu era estudante e não tinha dinheiro suficiente. Podia ter ganho dinheiro extra, trabalhando na construção civil, como muitos. Mas qual teria sido o objectivo? Estive numa equipa de construção,  uma vez.
Fui para Komi, onde abati árvores para uma indústria de serração e reparação de casas. Acabei o trabalho e eles deram-me im pacote de dinheiro, provavelmente, 1.000 rublos. Nesses dias, um carro custava 3.500 a 4.000 rublos. Mas por mês e meio de trabalho, eles pagaram-me 1.000 rublos. Na verdade, uma porção de dinheiro fantástica.
Ganhámos o nosso dinheiro. Então tínhamos de gastá-lo em alguma coisa. Os meus dois amigos e eu, fomos para Gagry de férias, sem mesmo parar em Leninegrado. Chegámos lá e no primeiro dia ficamos embriagados, por ter procurado e consumido kebabs com vinho do Porto. Depois pensámos no que fazer a seguir. Onde poderíamos passar a noite? Provavelmente havia alguns hotéis, mas não esperávamos encontrá-los. Já noite avançada, encontrámos uma senhora idosa que concordou ficar connosco e ceder-nos um quarto.
Passámos alguns dias a nadar, bronzear e a desfrutar um descanso merecido. Mas em breve, tivémos de sair de lá e regressar a casa. Estávamos sem dinheiro. Arquitectámos um plano; iríamos encontrar lugares no convés de um navio a vapor a caminho de Odessa. Então tomávamos um comboio para Peter, comprando bilhetes para os beliches de cima, nas carruagens-cama, que eram mais baratos.
Juntámos os trocados e percebemos que só tínhamos alguns trocados deixados para a compra de provisões. Decidímos comprar tushonka, uma espécie de guisado enlatado, para a viagem. Um dos meus companheiros era mais cuidadoso com o dinheiro do que o outro, que era um gastador. Quando dissémos ao nosso amigo mais poupado que ele devia partilhar a massa, ele pensou um minuto e depois disse: “Essa carne estufada é um bocado dura para o meu estomago. Não é a comida apropriada para comprar. Nos dissémos: “Seja como for. Vamos indo”
Quando chegámos às docas, havia uma grande multidão. O navio era enorme, um bonito paquete transatlânticobranco. Disseram-nos que eram permitidos apenas, os passageiros com bilhetes para as cabines e os que tivéssem assentos no convés ainda não eram admitidos. Todos os passageiros do convés tinham bilhetes pequenos  de cartão, mas nós tínhamos bilhetes maiores, semelhantes aos dos passageiros de primeira classe. O meu amigo que tinha recusado juntar o dinheiro para a carne enlatada disse: “Sabem, não gosto do aspecto disto. Penso que não vai resultar. Vamos tentar entrar agora. Eu disse:" É estranho, vamos ficar aqui e esperar a nossa vez." Ele disse: "Bem, podes ficar se quiseres. Nós vamos entrar. "Então eles foram embarcar no navio e, claro, corri atrás deles.
O cobrador dos bilhetes perguntou-nos que bilhetes tínhamos. “Temos os grandes,” respondemos. Ele acenou-nos para entrar.
Então, deixaram-nos entrar a bordo com os passageiros de primeira classe. Depois, o contramestre ou alguém, gritou: “Há mais passageiros da primeira classe?”A multidão na doca permanecia silenciosa. Ele tornou a perguntar: “Estão apenas os passageiros do convés?” A multidão, que esperava ser admitida, gritou emocionada: “Sim, só passageiros do convés!” Ao que ele gritou: “Ergam a prancha!”
Eles ergueram a escadaria de acesso e de repente, o pânico ocorreu no cais. As pessoas estavam furiosas. Tinham sido enganadas. Tinham pago dinheiro e agora não os deixavam entrar no barco.
Mais tarde foi-lhes dito que havia excesso de carga e que o navio estava cheio.
 Se não tivéssemos entrado a bordo quando o fizémos, teríamos ficado na doca. E não tínhamos nem uma única moeda. Não sei o que teríamos feito.
Então, instalámo-nos nos barcos salva-vidas, que pairavam sobre a água. E foi assim que chegámos a casa, como se estivéssemos deitados em redes. Durante duas noites, olhei para o céu e não consegui desviar os olhos. O navio continuou navegando e as estrelas pareciam penduradas muito perto. Sabem o que quero dizer? Os marinheiros podem estar acostumados, mas para mim foi uma descoberta maravilhosa.
Naquela primeira noite, observámos os passageiros das cabines. O que nos deixou um pouco melancólicos ao ver quão maravilhosas eram as suas vidas. Tudo o que tínhamos eram os barcos salva vidas, as estrelas e as latas de tushonka.
O nosso amigo poupado não tinha carne enlatada. Não aguentou mais e foi ao restaurante. Mas os preços lá eram tão altos que voltou rapidamente e disse com indiferença: "Bem, suponho que não me importaria de levar uma pequena lata de tushonka para baixo". Mas o meu outro amigo, que cumpria rigorosamente as regras, disse: "Sabes, tens de ter cuidado com o teu estômago. Não é bom para ti”. Então o amigo parcimonioso, depois disso, passou fome durante um dia. Claro que foi cruel, mas também foi justo.
Quando fui para a universidade, comecei a concentrar-me nos meus estudos. O atletismo ficou em segundo lugar. Mas treinei regularmente e participei em todas as competições da União, embora, na verdade, fosse apenas por hábito.
Em 1976, tornei-me campeão intercidades. As pessoas da nossa secção incluíam não apenas amadores, como eu, mas também profissionais e campeões europeus e olímpicos, tanto no sambo como no judo.
Classifiquei-me como Mestre cinturão negro de sambo depois de entrar na universidade e, dois anos depois, Mestre de judo. Não sei como é hoje em dia, mas naquela época era necessário obter um certo número de vitórias sobre os oponentes de um certo nível e participar em competições sérias. Por exemplo, tinha de estar entre os três primeiros na cidade ou conseguir o primeiro lugar em todas as competições do Trud.
Lembro-me muito bem de algumas partidas. Depois de uma delas eu não conseguia nem respirar. O meu adversária era um atleta forte e eu tinha usado tanta energia que apenas chiava, em vez de inspirar e expirar. Ganhei, mas apenas por uma pequena margem.
Houve uma ocasião em que perdi num combate com o campeão mundial, Volodya Kullenin. Mais tarde ele começou a beber muito e foi assassinado na rua. Mas, na universidade, era um óptimo atleta, realmente brilhante e talentoso. Ainda não tinha começado a beber quando lutei com ele. Estávamos a competir pelo campeonato da cidade. Ele já era campeão mundial. Imediatamente, durante os primeiros minutos, lancei-o sobre as minhas costas e fi-lo graciosamente, com facilidade. Em princípio, o jogo deveria ter terminado naquele momento, mas como Kullenin era campeão mundial, não teria sido correcto parar a luta. Então deram-me alguns pontos e continuamos. É claro que Kullenin era mais forte que eu, mas lutei muito. Segundo as regras desta arte marcial, qualquer tipo de grito é considerado um sinal de derrota. Quando Kullenin torceu o meu cotovelo para trás, o juiz pareceu escutar alguns grunhidos meus. Então Kullenin foi declarado o vencedor. Recordo esse jogo até hoje. Não tive vergonha de perder com um campeão mundial.
Houve outra partida que  vou recordar para o resto da minha vida, embora não tenha participado. Tinha um amigo na universidade com quem conversei para ele entrar no ginásio. Primeiro  treinou judo e fê-lo muito bem. Uma vez houve uma competição e ele estava a lutar. Ele deu um pulo para a frente e caiu de cabeça no tapete. As vértebras estavam deslocadas e ele estava paralisado. Morreu 10 dias depois no hospital. Era um colega excelente. E arrependo-me, até hoje,  de tê-lo levado para o judo. . . .
Traumas como este foram bastante frequentes durante as competições e partidas. As pessoas quebravam braços ou pernas. Os jogos eram uma forma de tortura. E o treino também era difícil. Costumávamos ir a um centro atlético nos arredores de Leningrado, no lago Khippiyarvi. É um lago razoavelmente grande, com cerca de 17 quilómetros de largura. Todas as manhãs, quando nos levantávamos, corríamos primeiro ao redor do lago. Depois da corrida, havia exercício, depois treino, café da manhã, mais treinos, almoço, descanso depois do almoço e depois, novamente, exercícios.
Costumávamos viajar bastante pelo país. Uma vez fomos a uma partida na Moldávia, em preparação para a competição dos Spartakiad dos povos da URSS. Estava terrivelmente quente. Eu estava a sair do nosso treino com o meu amigo Vasya e havia vinho à venda em todos os lugares. Ele disse-me: “Vamos beber uma garrafa de vinho cada um”. “Está muito calor”, respondi. “Então vamos descontrair”, disse ele. "Tudo bem, tudo bem. Vamos beber um pouco de vinho", respondi.
Cada um de nós pegou numa garrafa, voltamos para o nosso quarto e aterramos nas nossas camas. Ele abriu a garrafa dele. “Está demasiado calor”, disse. “Não vou beber.” "Não mesmo?" ele perguntou. "Ok, faz como entenderes”.  E esvaziou a garrafa. Então ele olhou para mim e perguntou: “Tens a certeza de que não vais beber nenhum?” “Sim, tenho a certeza”, respondi. Então ele pegou na segunda garrafa e esvaziou-a. Colocou as garrafas vazias na mesa e apagou, instantaneamente, como uma luz. De repente, lá estava ele, a ressonar. Realmente arrependi-me de não ter bebido com ele! Eu dei voltas e  mais voltas. Não consegui aguentar mais e abanei-o levemente. “Ei, tu aí. Estás a ressonar, para com isso! Estás a roncar como um elefante”. 
Foi uma excepção, porque beber torna os treinos muito mais difíceis. Havia um tipo enorme que treinava connosco. Chamava-se Kolya. Não só era gigantesco, mas tinha um semblante incrível. Tinha um queixo proeminente que se projectava para frente e sobrancelhas enormes. Uma noite, alguns rufias começaram a cercá-lo num beco escuro e ele disse: "Gente, acalmem-se. Aguentem um segundo". Então pegou num fósforo, raspou-o e segurou-o perto do rosto. "Basta olhar para mim", disse ele. E esse foi o fim desse incidente.
Sergei Roldugin (solista da Orquestra Sinfónica do Teatro Mariinsky, amigo da família Putin e padrinho da filha mais velha de Putin, Masha):
O Volodya foi para a escola com o meu irmão. Quando me mudei para Leningrado,o meu irmão falou-me do Vovka. Trouxe-o para nossa casa e demo-nos bem. Penso que foi em 1977. Depois, ele tornou-se um irmão para mim. Quando não tinha para onde ir, ia até a casa dele.Comia e dormia lá.
Fui convocado para o exército e servi em Leningrado. Uma vez, Vovka veio ver-me no seu Zaporozhets. Saltei a vedação e abandonei o meu posto sem permissão. Passeamos em Leningrado durante toda a noite. O tubo de escape estava danificado e nós andámos às voltas, cantando cantigas. Até me lembro da música que cantámos:
"Nós tivemos apenas uma noite,
O comboio de alguém foi embora esta manhã
E depois o avião de alguém partiu um pouco depois. . . "
VP: Nós cantámos e cantámos muito alto, sem inibições. Afinal de contas, o tubo de escape estava partido. Uma vez minha mãe recebeu um bilhete de lotaria estatal, em vez do troco, numa cafetaria e ganhou um carro Zaporozhets. Eu estava no terceiro ano da universidade e não conseguímos decidir o que fazer com aquele carro durante muito tempo, visto que vivíamos muito modestamente. Eu acabara de comprar o meu primeiro casaco quando voltei de trabalhar nas obras, um ano depois das férias, com os meus amigos em Gagry. Foi o meu primeiro casaco decente. O dinheiro era escasso na nossa família e dar-me o carro era uma loucura completa. Poderíamos tê-lo vendido e conseguido pelo menos 3.500 rublos por ele. O que teria resolvido o nosso orçamento familiar com bastante antecedência. Mas os meus pais decidiram mimar-me. Deram-me o Zaporozhets. Diverti-me bastante  com aquele carro. Costumava conduzir para todos os lugares, até mesmo para as minhas lutas.
Era um condutor destemido, mas receava ter um acidente com o carro. Como iria consertá-lo?
No entanto, uma vez teve um acidente. Atropelou um homem.
Não foi por minha culpa. Ele saltou para a minha frente ou algo assim. . . . Decidiu pôr fim à vida. . . . Não sei o que é que ele estava a fazer. Era idiota. Fugiu depois de eu lhe ter batido.
Dizem que o perseguiu.
O quê? Pensa que eu bati num fulano com meu carro e que tentei persegui-lo? Não sou uma fera. Saí do carro.
É capaz de permanecer calmo em situações críticas?
Sim, continuo calmo. Mesmo calmo demais. Mais tarde, quando fui para a escola dos serviços secretos/br. inteligência, certa vez recebi uma avaliação, onde eles escreveram o seguinte, como avaliação negativa do caráter: “Uma sensação de perigo diminuída”. Isso era considerado uma falha muito séria. Você tem de ter entusiasmo e estímulo em situações críticas para reagir bem. O medo é como a dor. É um indicador. Se algo dói, significa que algo está errado no seu corpo. É um sinal. Eu tive de trabalhar o meu sentido de perigo durante longo tempo.
É evidente que não é um jogador?
Não, não sou um jogador.
Perto do final da universidade, fomos para o campo de treino militar. Dois dos meus amigos estavam lá, um dos quais tinha ido a Gagry comigo. Passámos lá dois meses. Era muito mais fácil do que os campos de atletismo e ficámos muito aborrecidos. A principal fonte de entretenimento eram os jogos de cartas. Quem ganhou foi para a aldeia e comprou leite a uma senhora idosa. Recusei-me a jogar, mas os meus amigos não. E perderam tudo rapidamente.
Quando não tinham mais nada, eles vinham implorar algum dinheiro. Eram verdadeiros apostadores. E eu questionava-me: "Devo dar-lhes alguma coisa? Eles só irão perdê-lo”.
E eles diziam: "Escuta, os teus poucos copeques não vão salvar-te, de maneira nenhuma. Por que razão  não nos dás”?  E eu dizia-lhes: “Tudo bem. Afinal, tenho um sentido de perigo diminuto” e dei-lhes o dinheiro.
Caramba, eles ganharam bastante dnheiro! Não podia ter corrido melhor. E fomos comprar leite à senhora todas as noites.
A universidade é uma época de romances. Teve algum?
Quem não teve? Mas nada sério . . . a não ser uma vez.
Primeiro amor?
Sim. Ela e eu tínhamos planeado dar o nó.
Quando é que aconteceu?
Cerca de quarto anos antes de eu casar.
Então não resultou?
Claro que não.
O que é que surgiu? 
Algo. Alguma intriga ou algo parecido.
Ela casou-se?
Com alguém? Sim, mais tarde.
Quem decidiu que não iriam casar?
 Eu. Tomei essa decisão. Já tínhamos os banhos a correr. Estava tudo pronto.
Os nossos pais tinham comprador tudo. O anel, o fato, o vestido de noiva... O cancelamento foi uma das decisões mais difíceirs da minha vida. Foi realmente difícil. Sentí-me uma pessoa detestável. Mas decidí que era melhor sofrer então do que ambos a sofrer mais tarde.
Isto é, fugiu literalmente e deixou-a no altar?
Quase. Só que não fugi. Contei-lhe a verdade tanto quanto considerei necessário.
Quer falar sobre esse assunto?
Não, não quero. É uma história complicada. Foi como foi. Foi realmente difícil.
Tem remorsos?
Não.
   
Sergei Roldugin:
Eu gostava da namorada dele, ela era uma menina bonita; uma estudante de medicina com um caráter forte. Ela era uma amiga para ele, uma mulher que cuidaria dele. Mas será que ela o amava? Não sei. Lyuda, a sua esposa ou Lyudik, como nós lhe chamamos agora, ela realmente ama-o.
Dava muito bem com aquela jovem. Penso que o nome dela também era Lyuda. Ela costumava preocupar-se com a saúde dele. Não era apenas: “Oh, querido, como te sentes?” Ela dizia: “Agora, posso dizer que o teu estômago está a doer”. Não sei o que aconteceu entre eles. Ele não me contou nada. Disse que tudo tinha acabado. Penso que o desentendimento foi apenas entre eles, porque ambos os pais concordaram com a situação.
Vovka sofreu, claro. O facto é que somos ambos do signo Balança e levamos as coisas muito a sério. E naquele momento vi que ele. . . que era uma pessoa muito emocional, mas que simplesmente não conseguia expressar as suas emoções. Costumava dizer-lhe que ele era uma pessoa terrível com quem conversar. Por que motivo é que ele tinha tanta dificuldade em conversar?
Claro,que agora é Cícero, comparado com a maneira como ele se exprimia naquela época. Eu costumava explicar-lhe: “Falas muito depressa. Não deverias falar tão rápido". Sendo artista de palco, pensei que poderia ajudá-lo. Ele tinha emoções muito fortes, mas não conseguia exprimi-las de maneira simples. Considero que a sua profissão deixou uma marca no seu discurso. Agora ele fala lindamente. De maneira expansiva, inteligível e com sentimento. Onde é que ele aprendeu a fazer isso?
Então não colaborou com o KGB enquanto estudava?
Eles nem tentaram recrutar-me como agente, embora fosse uma prática generalizada na época. Muitas pessoas colaboraram com as agências de segurança. A cooperação de cidadãos normais foi uma ferramenta importante para a actividade viável do Estado. Mas o ponto principal era o tipo de base em que essa cooperação era estabelecida. Você sabe o que é um "seksot"?
Significa colega secreto ou colaborador.
Certo. Mas sabe por que adquiriu uma conotação tão negativa?
Ideológica.
Sim, ideológica. Eles fiziam investigação política. Todos pensam que o trabalho dos serviços secretos é interessante. Sabe que noventa por cento de todas as informações dos serviços secretos são obtidas de uma rede de agentes composta de cidadãos soviéticos comuns? Esses agentes decidem trabalhar pelos interesses do Estado. Não importa como designam este trabalho. O importante é: Em que base essa cooperação acontece? Se é baseada em traição e ganho material, é uma coisa. Mas se é baseada em alguns princípios idealistas, então é outra coisa. E quanto à luta contra o banditismo? Não se pode fazer nada sem agentes secretos.
Então, quando é que aderiu ao KGB?
 Durante todos esses anos na universidade, esperei que o homem da secretaria do KGB se lembrasse de mim. Parecia que ele se tinha esquecido de mim. Afinal, eu tinha ido vê-lo quando era ainda um garoto da escola. Quem teria pensado que eu poderia ter essa coragem? Mas recordei que eles não gostavam que as pessoas mostrassem iniciativa própria, então não me dei a conhecer. Permaneci sossegado.
Passaram quatro anos. Nada aconteceu. Pensei que o caso estava encerrado e comecei a procurar outras alternativas para encontrar emprego no gabinete do promotor de Justiça ou como advogado. Ambos são campos de prestígio.
* Este segmento de perguntas e respostas foi publicado em jornais, mas não foi incluído na edição russa do livro de Vladimir Putin, First Person. Várias outras passagens das entrevistas que foram publicadas apenas em jornais, estão incluídas nesta edição em inglês.
Mas então, quando estava no meu quarto ano da universidade, um homem veio e pediu-me para me encontrar com ele. Não disse quem era, mas percebi imediatamente, porque ele disse: “Preciso de falar consigo sobre a sua carreira profissional. Não gostaria de especificar já, exactamente o que é.” Percebi de imediato. Se eles não quisessem dizer aonde, significava que seria lá.
Concordámos encontrar-nos no vestíbulo da Faculdade. Ele estava atrasado. Esperei por cerca de 20 minutos. Bem, eu pensei, que suíno! Ou estaria alguém a pregar-me uma partida? E decidi ir embora. Então, de repente, ele chegou, sem fôlego.
"Sinto muito", disse.
Gostei daquilo.
"Está tudo combinado", disse ele. "Volodya, ainda falta muito tempo, mas como se sentiria se fosse convidado para trabalhar nas agências?" Não lhe contei que sonhara com esse momento desde que andava na escola. Não lhe disse, porque me lembrei da minha conversa na secretaria do KGB, há muito tempo: “Não aceitamos pessoas que nos procuram por sua iniciativa”.
E quando você concordou em trabalhar nas agências, você pensou em 1937?
Para ser sincero, nem pensei em tal. Nem um pouco. Recentemente, encontrei-me com alguns antigos colegas do pessoal da Directoria da KGB com quem trabalhei no começo e falámos sobre a mesma coisa. E posso dizer--lhes o que lhes disse: quando aceitei a proposta do departamento de pessoal da Directoria (na verdade, o meu recrutador era um funcionário da subdivisão que trabalhava com as universidades), não pensei nas purgas [na era de Stalin]. A minha noção do KGB vinha de histórias românticas de espionagem. Eu era um produto puro e totalmente bem-sucedido da educação patriótica soviética.
Não sabia nada sobre as purgas?
Não sabia muito. Sim, claro, eu sabia do culto de personalidade de Stalin. Sabia que as pessoas haviam sofrido e que o culto da personalidade havia sido desmantelado. . . . Não era completamente ingénuo. Tenha em mente que eu tinha 18 anos quando fui para a universidade e que me formei aos 23 anos.
Mas os que se importavam saber, sabiam tudo sobre isso.
Vivíamos sob as condições de um estado totalitário. Tudo estava oculto.
Quão profundo era esse culto da personalidade? Quão grave foi ?
Os meus amigos e eu não pensamos nisso. Então fui trabalhar para as agências com uma imagem romântica do que eles faziam. Mas depois dessa conversa no vestíbulo, não ouvi mais nada. O homem desapareceu. E depois houve um telefonema; um convite para o departamento de pessoal da universidade. Dmitry Gantserov ainda me lembro de seu nome foi o único a falar comigo.
Mas houve quase um deslize na comissão de emprego. Quando chegaram ao meu nome, um representante do Departamento de Direito disse: “Sim, estamos a treiná-lo para exercer num tribunal”. Então o agente que estava a controlar as tarefas dos alunos, de repente acordou, ele estava a dormir num canto. "Oh, não", disse. "Essa questão já foi decidida. Estamos a contratar Putin para trabalhar nas agências do KGB." Ele proferiu isso em voz alta assim, na frente da comissão de trabalho.
E então, vários dias depois, eu estava a preencher todos os tipos de formulários e documentos.
Eles disseram que estavam a contratá-lo para trabalhar noa serviços secretos?
Claro que não. Foi tudo muito sistemático. Eles colocam o assunto da seguinte maneira: “Estamos a propor-lhe que trabalhe no campo para o qual o enviaremos. Você está pronto?” Se o requerente hesitava e dizia que tinha que pensar sobre isso, eles diziam simplesmente : “Ok. Próximo!” E essa pessoa não teria outra oportunidade. Você não pode erguer o nariz e dizer: “Eu quero isto e não quero aquilo”. Eles não podem empregar pessoas assim.
Claro que disse que estava pronto para trabalhar para onde eles o enviassem?
Sim. Claro. E eles mesmos nem sabiam onde eu iria trabalhar. Estavam apenas a contratar novos funcionários. Na verdade, é uma questão de rotina, recrutar pessoal e determinar quem deve ser enviado e para onde. Foi-me feita uma oferta de rotina.
Sergei Roldugin:
Vovka disse-me imediatamente que estava a trabalhar no KGB. Praticamente de imediato. Talvez não devesse fazer isso. Ele disse a algumas pessoas que estava a trabalhar na polícia. Por um lado, eu tratei esses fulanos com cautela, porque tive alguns desentendimentos com eles. Tinha viajado para o estrangeiro e sabia que havia sempre pessoas declaradas como sendo inspectores ou funcionários do Ministério da Cultura. Tínhamos de manter a boca fechada quando estávamos perto deles.
Certa vez contei a um colega meu: "Vamos lá, eles são normais, são bons rapazes". E ele disse: "Quanto mais falar com eles, tanto mais lixo eles terão no seu cadastro, na rua Liteiny."
* 4 Liteiny Street foi o endereço da sede do KGB, em Leningrado e actualmente aloja o sucessor do KGB, o FSB (Serviço Federal de Segurança).
Nunca inquiri Volodya sobre o seu trabalho. Claro que estava curioso. Mas lembro-me de quando decidi encurralá-lo e descobrir algo sobre alguma operação especial. Não cheguei a nenhuma conclusão.  
Mais tarde, disse-lhe: “Sou violoncelista. Tóco violoncelo. Nunca poderia ser um cirurgião. Ainda assim, sou um bom violoncelista. Mas qual é a tua profissão? Sei que és um espião. Não sei o que isso significa. Quem és? O que fazes?”
Ele respondeu: “Sou especialista em relações humanas”. E esse foi o fim da nossa conversa. Realmente, ele pensava que era capaz de julgar personalidades. Quando me divorciei de minha primeira esposa, Irina, ele disse: "Eu previ que seria exactamente assim que aconteceria". Discordei. Não podias saber o que aconteceria entre mim e Irina desde o começo. Mas o seu comentário causou uma grande impressão em mim. Acreditava no que ele dizia: que era especialista em relações humanas.


A seguir:


PARTE 4


O JOVEM ESPECIALISTA

Sunday, June 24, 2018

NA PRIMEIRA PESSOA -- PARTE 2 -- O ALUNO

 





O ALUNO
As entrevistas com a professora de Putin revelam um  estudante com uma mente brilhante. Putin chegava sempre atrasado à escola e não se filiou nos Pioneiros. Mas depois, aos 10 anos, descobriu as artes marciais e, depois de ter lido novelas e ter visto filmes sobre espiões, desenvolveu uma fixação obstinada de ingressar no KGB. Aos 16, dirigiu-se ao quartel general do KGB onde lhe foi dito que tinha de frequentar uma Faculdade de Direito e manter a boca fechada, se realmente quisesse ser espião. Apesar das súplicas e das ameaças dos seus pais e do professor de judo, decidiu fazê-lo.
Recorda-se da Primária?
Nasci em Outubro, por isso, não entrei na escola senão quando tinha quase oito anos. Ainda temos a fotografia no arquivo da família: Estou com um uniforme cinzento, à moda antiga. Parece um uniforme militar e, por qualquer razão, estou de pé com um vaso de flores na mão. Não um ramo, mas um vaso.
Queria ir para a escola?
Não, não propriamente. Gostava de brincar ao ar livre, no nosso pátio. Havia dois pátios juntos, como um poço de ar e a minha vida decorria aí. Às vezes a minha Mãe surgia à janela e gritava “Estás no pátio?” Eu estava sempre lá. Desde que não fugisse, podia brincar no pátio sem pedir permissão.
E nunca desobedeceu, nem uma vez?
Quando tinha cinco ou seis anos, fui até à esquina da rua principal sem consentimento. Foi no Primeiro de Maio. Olhei à volta. As pessoas surgiam fazendo muito barulho. A rua estava muito animada. Estava mesmo um pouco assustado.
Então, num inverno, quando era um pouco mais velho, os meus amigos e eu, decidimos sair da cidade sem dizer nada aos nossos pais. Queríamos fazer uma viagem.
Saímos do comboio, algures e estávamos completamente perdidos. Fazia frio. Tínhamos trazido alguns fósforos e tentámos fazer uma fogueira. Não tínhamos nada para comer. Ficámos completamente gelados. Voltámos para o comboio e fomos para casa. Apanhámos de cinto por essa façanha. E nunca mais quisemos fazer outra viagem.
Então nunca mais procurou aventuras?
Durante algum tempo. Especialmente quando fui para a escola. Frequentei a Escola no. 193, que estava na mesma rua da minha casa, a cerca de 7 minutos a pé, da primeira até à oitava classe. Chegava sempre atraso, durante a primeira classe, pois mesmo no inverno, não vestia muitos agasalhos. Demorava muito tempo a vestir-me, a correr para a escola e depois tirava o casaco. Então, para poupar tempo, nunca vestia o casaco e disparava para a escola como uma bala e sentava-me na minha carteira.
Gostava da escola?
Durante algum tempo. Enquanto diligenciei ser, como é que hei-de referir? O líder tácito.  A escola era muito perto da minha casa. O nosso pátio era um refúgio seguro, e isso ajudou.
As pessoas prestavam-lhe atenção?
Não tentei comandar os outros. Era mais importante preservar a minha independência. Se tivesse de comparar com a minha vida de adulto, diria que o papel que desempenhei em criança era como a função da área judicial e não do ramo executivo. Enquanto funcionei dessa maneira, gostei da escola. Mas não durou para sempre. Em breve, tornou-se evidente que as minhas capacidades do pátio não eram suficientes e comecei a praticar desporto. E para manter o meu estatuto social tinha de começar a ter bom aproveitamento na escola. Para ser sincero, até à sexta classe, tinha sido um aluno muito imprevisível.
Vera Dmitrievna Gurevich:
Conheci Volodya quandi ainda frequentava a quarta classe. A professora, Tamara Pavlovna Chizhova disse-me uma vez: “Vera Dmitrievna, fica com a minha classe. Não são maus alunos.”Fui visitar a classe e organizei um club de língua alemã. Foi interessante ver quem apareceu. Vieram cerca de 10-12 alunos. Tamara Pavlovna perguntou quem estava lá. Disse-lhe: “Natasha Soldatova, Volodya Putin . . .Ela ficou surpeendida. “O Volodya também? Nem parece dele.” Mas ele demonstrou muito interesse pelas lições.
Ela disse: “Bem, espera e verás.” Perguntei: “O que queres dizer com isso?” Ela respondeu que ele era demasiado manhoso e desorganizado. Nem sequer estava nos Pioneiros.
Habitualmente, era-se aceite nos Pioneiros na terceira classe. Mas o Volodya não porque era muito astuto. Algumas classes estudavam Inglês e outras Alemão. O Inglês estava mais na moda do que o Alemão e havia mais aulas de Inglês. Volodya acabou na minha classe. Na quinta classe, ele ainda não se tinha evidenciado, mas senti que ele tinha potencial, energia e personalidade. Vi o seu grande interesse pela língua. Aprendeu-a facilmente. Tinha muito boa memória e uma mente rápida.
Pensei: Este miúdo vai ser alguém. Decedi dedicar-lhe mais atenção e desencorajei-o a conviver com os rapazes da rua. Tinha amigos na vizinhança, dois irmãos de apelido Kovshov e costumava andar com eles, a saltar dos telhados das garagens e dos barracos. O pai de Volodya não gostava muito disso. Mas não conseguia afastar Volodya dos irmãos Kovshov.
O pai dele era muito austero e imponente. Muita vezes tinha um ar zangado. A primeira vez que o vi, fiquei assustada. Pensei: “Que homem tão severo e rígido. E depois verifiquei que era uma pessoa de bom coração. Mas não era de beijos e abraços. Não havia nada de cenas amorosas em casa. 
Uma vez fui visitá-los e disse ao pai de Volodya, “o Seu filho não está a trabalhar toda a sua potencialidade.” Ele disse: “Bem, e que posso fazer? Matá-lo ou o quê? Respondi: “Tem de ter uma conversa com ele. Vamos tentar melhorá-lo, o senhor em casa e eu na escola. Ele pode ter melhores notas. Ele percebe tudo muito rapidamente.” Em todo o caso, concordámos fazê-lo progredir; mas de facto, não tivémos nenhuma influência especial.
O próprio Volodya mudou, repentinamente, na sexta classe. Era óbvio; tinha estabelecido um objectivo. Acima de tudo, tinha compreendido que tinha de conseguir algo, na vida. Começou a ter melhores notas e conseguia-o facilmente. Finalmente, foi aceite nos Pioneiros. Houve uma cerimónia e fomos a casa de Lenin, onde foi admitido nos Pioneiros. Pouco depois tornou-se o líder da sua unidade.
Por que motivo não foi admitido nos Pioneiras até à sexta classe? Foi tudo muito mau até então?
Claro. Eu era um rufia, não era um Pioneiro.  
Está a ser tímido?
Está a insultar-me. De facto, era um mau rapaz.
Vera Dmitrievna Gurevich:
A maioria das crianças gostava de ir aos bailes. Tivemos espectáculos nocturnos na escola. Designávamo-los como o Clube de Cristal. E encenávamos peças de teatro. Mas Volodya não participou em nada disso.
O pai queria realmente que ele tocasse acordeão e obrigou-o a ter aulas nas primeiras classes. Volodya resistiu. Embora  gostasse de guitarra. Cantou principalmente Vysotsky, * todas as músicas do álbum ‘Vertical’, sobre as estrelas e sobre Seryozha de Malaya Bronnaya Street.
* Vladimir Vysotsky era um cantor de música popular russa.
Mas não gostava muito de socializar. Preferia desportos. Começou a praticar artes marciais para aprender a defender-se. Quatro vezes por semana, tinha aulas algures, perto da Estação Finland, e ia muito bem. Gostava de Sambo  Depois, começou a tomar parte em competições que determinavam que ele viajasse para outras cidades. 
Comecei a praticar desporto quando tinha 10 ou 11 anos. Logo que se tornou claro que a minha natureza combativa não me manteria como rei do pátio ou da escola, decidi entrar no boxe. Mas não durou muito tempo. Em breve, tinha o nariz quebrado. A dor foi terrível. Não conseguia nem tocar na ponta do nariz. Mas, embora todos me dissessem que eu precisava de uma operação, não fui ao médico.
Por quê?
Sabia que iria curar-se por si mesmo. E assim aconteceu. Mas, depois disto perdi o ‘bichinho’ do boxe. Então decidi praticar sambo, uma combinação soviética de judo e luta livre. Nessa época as artes marciais eram muito populares. Fui para uma aula, perto da minha casa e comecei a praticar. Era um ginásio muito simples que pertencia ao clube atlético Trud. Tinha um professor muito bom, Anatoly Semyonovich Rakhlin, que dedicou toda a sua vida a essa arte marcial, e ainda treina raparigas e rapazes até hoje.
Anatoly Semyonovich desempenhou um papel decisivo na minha vida. Se não me tivesse envolvido no desporto, não faço ideia como é que a minha vida teria sido. Foi o desporto que me tirou das ruas. Sinceramente, o pátio não era um bom ambiente para uma criança.
Primeiro aprendi sambo. Depois judo. O professor decidiu que deveríamos todos praticar judo e assim fizemos.
O Judo não é apenas um desporto, como sabem.É uma filosofia. É respeitar os mais velhos e os seus opositores. Não é para fracos. Tudo no judo tem um aspecto positivo. Vai-se para o tapete, fazem mutuamente uma vénia, seguem o ritual. Como sabe, poderia ser feito de maneira diferente. Em vez de se curvar perante o seu oponente, poderia agredí-lo na testa.
Fumou alguma vez?
Não. Tentei várias vezes, mas nunca fumei regularmente. E quando comecei a fazer desporto, coloquei isso completamente de lado. Comecei a fazer exercício físico de vez em quando e depois todos os dias. Em breve, não tinha tempo para mais nada. Tinha outras prioridades; tinha de me pôr à prova no desporto, alcançar algo. Estipulei objectivos. O desporto realmente teve uma grande influência em mim.
E não praticou karaté?
Naqueles dias era um desporto popular, embora pensasse que tinha sido banido. Pensávamos que o karaté e outros desportos de não contacto eram como o ballet. Os desportos eram desportos se se tivesse de derramar suor e sangue e trabalhar duramente.
Mesmo quando o karate se tornou popular e as escolas de karaté se começaram a espalhar, considerávamo-las apenas como empresas de fazer dinheiro. Nós, pelo contrário, nunca pagámos dinheiro pelas nossas lições. Todos nós pertencíamos a famílias pobres. E como as lições de karaté custavam dinheiro desde o princípio, as crianças que aprendiam karaté pensavam que eram de primeira classe.
Uma vez fomos para o ginásio com Leonid Ionovich, o instrutor mais velho do Trud.  Os alunos de karaté estavam a treinar no tapete, embora fosse a nossa vez. Leonid foi até junto do treinador e disse que era hora da nossa aula. O treinador de karaté nem sequer olhou para ele, como se dissesse, vai-te embora. Então Leonid, sem dizer uma palavra, sacudiu-o, apertou-o levemente e o arrastou para fora do tapete. Ele tinha perdido os sentidos. Então Leonid virou-se para nós e disse: “Entrem e ocupem os vossos lugares” Essa foi a nossa atitude em relação ao karaté.
Os seus pais incentivaram-no a ter essas lições?
Não, foi precisamente o contrário. Ao princípio, estavam muito desconfiados. Pensavam que eu estava a adquirir alguma espécie de capacidade perigosa para usar nas ruas. Mais tarde, conheceram o professor e começaram a visitar a sua casa e a atitude deles mudou. E quando alcancei os meus primeiros bons resultados, os meus pais compreenderam que o judo era uma arte importante e útil.
Começou a ganhar?
Sim, dentro de um ano ou dois.
Vera Dmitrievna Gurevich:
Ensinei Volodya desde a quinta até à oitava classe, inclusive. Então tivemos de decidir para que escola o devíamos mandar. E a maior parte da classe foi para a Escola No. 197. Petra Lavrova tinha começado a ir a casa de Putin a partir da sexta classe. Volodya não tinha um interesse especial por meninas; mas claro que elas estavam interessadas nele. De repente, ele anunciou a todos: “Vou para a Universidade.” Perguntei-lhe: “Como?” Ele respondeu: “Resolverei esse problema por mim mesmo”. 
Mesmo antes de ter terminado o Secundário, queria trabalhar nos serviços secretos. Era um dos meus sonhos, embora parecesse tão provável como uma viagem a Marte. E claro, por vezes, as minhas ambições mudavam. Também queria ser marinheiro. E numa certa altura, também queria ser piloto. A Academia da Aviação Civil é em Leninegrado, e eu estava empenhado em entrar. Li a litereatura e cheguei mesmo a subscrever um jornal sobre aviação. Mas depois, os livros e os filmes de espiões como “A espada e o Escudo” tomaram conta da minha imaginação. O que me surpreendia mais, acima de tudo, é como o esforço de um homem podia alcançar o que exércitos inteiros não conseguiam. Um espia podia decidir o destino de milhares de pessoas. Pelo menos, essa era a maneira como eu compreendia.
A Academia de Aviação Civil perdeu, rapidamente, a sua emoção. Tinha feito a minha escolha. Queria ser um espião. Os meus pais não conseguiam compreender. O meu professor de judo foi vê-los e disse-lhes que, como eu era um atleta, podia entrar no instituto sem praticamente ter de fazer exames. Por isso, eles tentaram dizer-me para ir para um instituto. O meu professor tomou o partido deles. Não podia compreender porque é que eu resistia.”Ele tem uma vantagem de 100% de entrar na Academia da Aviação Civil,” disse aos meus pais. E se não entrar na Universidade, então poderá ir para o Exército.”
Foi uma situação muito difícil. O meu Pai tinha uma personalidade dominante. Mas eu finquei-me no meu desejo e disse que tinha decidido.
Então, outro dos meus treinadores do Trud Club, Leonid Ionovich, veio visitar-me. Era um tipo inteligente. “Bem”, disse-me, “Para onde vais?” Claro que já sabia. Estava só a ser astuto. Disse-lhe: “Para a Universidade.” “Oh, óptimo, vai ser bom para ti”, disse, “para que departamento?” “Para a Faculdade de Direito”, respondi. Então, rugiu: “O quê? Para apanhar pessoas? Que estás a fazer? Vais ser um polícia, compreendes?” Sentí-me insultado. “Não vou ser um polícia!” Retorqui aos berros.
Pressionaram-me durante um ano. Só aumentaram a minha vontade de ir para a Faculdade de Direito. Mas porque razão a Faculdade de Direito?
Para saber como ser um espião, perto do nono ano tinha ido à Secretaria da Directoria do KGB. Veio um funcionário e escutou-me. “Queria trabalhar para vós”, disse-lhe “Excelente, mas há várias questões” respondeu-me. “A primeira, não empregamos pessoas que venham ter connosco por sua iniciativa. A segunda, só pode abordar-nos depois da tropa ou depois de qualquer tipo de educação superior civil.”
Eu estava intrigado. “Que tipo de educação superior?” perguntei. “Qualquer uma!” respondeu. Provavelmente queria despachar-me. “Mas qual é a preferida?”perguntei. “A Faculdade de Direito”. E foi assim. A partir desse momento, comecei a preparar-me para a Faculdade de Direito da Universidade de Leningrado. E ninguém me pôde impedir.
Mas os meus pais e os meus treinadores tentaram. Ameaçaram-me com o serviço militar durante bastante tempo. O que não compreenderam é o que o exército me servia muito bem. Claro que teria atrasado um pouco o meu progresso, mas isso não me desviaria da minha decisão.
No entanto, os treinadores tinham mais truques na manga. Quando fui à Universidade matricular-me nas classes preparatórias, soube que tinham feito listas de atletas a quem deveria ser dada a prioridade na admissão à Universidade. Soube, por um facto, que não estava na lista. Mas quando estava a matricular-me, o meu professor de ginástica  tentou forçar-me a aderir ao Burevestnik Club. Perguntei-lhe: “Como posso mudar para lá?”E ele respondeu, “Ajudámos-te a entrar na Universidade, então, por favor tem a bondade...”Eu sabia que estavam a aprontar alguma coisa.
Fui ter com o Reitor. Entrei e disse-lhe sinceramente, “Sou forçado a transferir-me para Burevestnik. Não penso que deva fazê-lo.” E o reitor, o Prof. Alekseyev, um homem bondoso, disse: “Por que é que o estão a forçar?” Respondi, “ Porque supostamente ajudaram-me, como atleta, a entrar na Universidade e agora tenho de retribuir-lhes, indo para Burevestnik.”

Ele retorquiu: “É verdade? Não pode ser! Todos entram nesta Universidade em igualdade de circunstâncias, avaliados pelo seu conhecimento, não através de listas de atletas. Espere um momento, vou procurar”. Foi à secretária dele, pegou numa lista e perguntou-me qual era o meu último nome. “Você não está na lista,” disse, “Portanto, pode dizer-lhes com segurança, para irem embora”. E foi o que eu fiz.



A seguir:


PARTE 3

O ESTUDANTE UNIVERSITÁRIO

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