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Thursday, April 25, 2019

Encontro com os candidatos após as eleições presidenciais da Federação Russa

 





Vladimir Putin reuniu-se com os candidatos que participaram das eleições presidenciais.
19 de Março de 2018
16:20
Kremlin, Moscovo

Meeting with candidates for post of Russian Federation President.

Presidente da Rússia Vladimir Putin: Boa tarde, colegas.
A campanha eleitoral terminou e eu queria encontrar-me convosco. Espero que hoje falemos, em primeiro lugar, sobre a campanha, e o mais importante, sobre o que necessita ser feito para garantir que todos os elementos positivos (e houve muitos deles durante a campanha eleitoral) sejam levados em consideração, no futuro trabalho prático nos ramos dos poderes executivo e legislativo do governo.
 Claro que uma campanha eleitoral é sempre um período especial. Está associada a emoções especiais e, muitas vezes, elas são bastante esmagadoras. Acontece em quase todos os lugares e nós não somos uma excepção. O principal é que temos a oportunidade de unir esforços no futuro, para um trabalho construtivo em benefício do nosso país.
Reuni-me hoje com os chefes da sede central, os co-presidentes da minha campanha e quero repetir, mais uma vez, a principal tarefa no trabalho futuro do poder executivo, será resolver os problemas internos do país. Em primeiro lugar, significa garantir taxas de crescimento económico, tornando a inovação parte do caráter da nossa economia, resolvendo questões específicas da saúde, educação e ciência, além de garantir a prosperidade do nosso povo, com base nesses elementos.
Este é o objetivo final de qualquer governo na Rússia; não é nada original e, além do mais - a propósito, quase todos vós observaram nas vossas campanhas - temos o problema de uma lacuna entre os que ganham muito, que têm grandes rendimentos e os que vivem humildemente, para dizer o mínimo . O Estado deve fechar essa lacuna e, como disse muitas vezes, reduzir o número de pessoas que vivem abaixo da linha de pobreza, especialmente as que têm emprego. O tipo de situação em que alguém trabalha, mas recebe um pagamento miserável, não deve ser permitido na Rússia.
At a meeting with candidates for post of Russian Federation President.
Obviamente, devemos e teremos de prestar a atenção necessária para fortalecer ainda mais a capacidade de defesa do país. Mas deixem-me dizer-vos que ninguém vai começar uma corrida de armamentos. Pelo contrário, vamos procurar criar relações construtivas com todos os países do mundo. Pretendemos um diálogo construtivo, sem dúvida, e incentivar est processo entre os nossos parceiros.
Mas, é evidente que nem tudo depende de nós. Deve haver interesse de ambos as partes, como no amor, ou não haverá amor. No entanto, nós, do nosso lado, faremos todo o possível por resolver todos os atritos com os nossos parceiros, através dos meios políticos e diplomáticos. Além do mais, de facto, a nossa posição sempre foi e sempre será, lutarmos para defender os nossos interesses nacionais. O nosso pressuposto operacional é de fazermos todo esse trabalho com os nossos parceiros, numa base mutuamente aceitável, mostrando respeito uns pelos outros e pelos nossos interesses nacionais.
Quanto às despesas militares. Existem reduções já planeadas, nas despesas da defesa, neste ano e no próximo. Não irá causar nenhum problema à nossa capacidade de defesa, porque as principais despesas com a criação de sistemas de armas de ponta foram feitas nos anos anteriores. Temos de encaminhar alguns assuntos para uma conclusão lógica e continuar com os projectos actuais, dos quais ainda não falei. Executamos todos os cálculos. O dinheiro que vamos colocar para este fim será suficiente, não haverá aumentos, e não vamos permitir uma nova corrida armamentista. Nós temos tudo, neste sentido, estamos bem fornecidos. No entanto, vamos continuar com os nossos objectivos de forma constante e de acordo com o plano.
At a meeting with candidates for post of Russian Federation President.
É o que gostaria de me concentrar no final do meu monólogo. Falei sobre este ponto, no comício de ontem, se tiveram tempo de assistir e se tomaram conhecimento. Penso que é crucial unir os esforços de todos os partidos políticos, organizações civis, o público no sentido mais amplo da palavra, unir os nossos esforços em torno de um programa positivo, resolver as tarefas que o país enfrenta e superar os desafios que a Rússia tem pela frente. Podem não haver soluções simples;  podem exigir explicações adicionais.
Espero, literalmente, que sejamos sempre guiados pelos interesses a longo prazo da Rússia e do povo russo, colocando as preferências do grupo ou do partido em segundo lugar.
Compreendo que não é fácil, há sempre a tentação de analisar certas decisões tomadas pelo governo que exigem explicações públicas adicionais. Mas aconselho-vos a participarem num diálogo aberto e honesto, que promova os interesses nacionais a longo prazo.
É sobre estes pontos que eu queria começar. Vamos discutir as nossas idéias sobre o que precisamos fazer juntos, a fim de resolver os problemas que o país enfrenta.
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Thursday, February 21, 2019

VLADIMIR PUTIN -- EXCERTO DO DISCURSO À ASSEMBLEIA FEDERAL







Excerto do Discurso Presidencial à Assembleia Federal  
20 de Fevereiro, 2019
Moscovo às 13:30h

Presidente da Rússia, Vladimir Putin: 

Colegas, a Rússia tem sido e será sempre, um Estado soberano e independente. Isso é um dado adquirido, uma verdade. Sê-lo-á sempre ou, simplesmente, deixará de existir. Devemos compreendê-lo claramente. Sem soberania, a Rússia não pode ser um Estado. Alguns países podem fazê-lo, mas não a Rússia.
Construir relações com a Rússia significa trabalhar em conjunto para encontrar soluções para os assuntos mais complexos, em vez de tentar impor soluções. Não fazemos segredo sobre as nossas prioridades na política externa. Elas incluem o fortalecimento da confiança, o combate às ameaças globais, promoção de cooperação na economia e no comércio, educação, cultura, ciência e tecnologia, bem como facilitar o contacto entre as pessoas. Esses princípios advogam o nosso trabalho na ONU, na Comunidade de Estados Independentes, bem como no Grupo dos 20, nos BRICS e na Organização de Cooperação de Xangai.
Acreditamos na importância de promover uma cooperação mais estreita e essencial no interior do Estado da União da Rússia e da Bielorrússia, incluindo na política externa e na coordenação económica. Juntamente com nossos parceiros de integração dentro da União Económica Eurasiática, continuaremos a criar mercados comuns e esforços de disseminação. O que inclui estabelecer decisões para coordenar as actividades da EAEU com a iniciativa ‘Belt and Road’ da China, em direcção a uma parceria eurasiática mais alargada.
Actualmente, as relações iguais e mutuamente benéficas da Rússia com a China, agem como um factor importante de estabilidade nos assuntos internacionais e em termos de segurança euroasiática, oferecendo um modelo de cooperação económica produtiva. A Rússia valoriza a realização do potencial de parceria estratégica privilegiada especial com a Índia. Continuaremos a promover o diálogo político e a cooperação económica com o Japão. A Rússia está pronta para trabalhar com o Japão na procura de termos mutuamente aceitáveis ​​para a assinatura de um tratado de paz. Pretendemos promover laços mais profundos com a Associação das Nações do Sudeste Asiático.
Também esperamos que a União Europeia e os principais países europeus finalmente tomem as medidas necessárias para regressar às relações políticas e económicas normais com a Rússia. Os povos desses países estão ansiosos por cooperar com a Rússia, incluindo as corporações, bem como pequenas e médias empresas e empresas europeias em geral. Escusado será dizer que isso serviria aos nossos interesses comuns.
A retirada unilateral dos EUA do Tratado INF é a questão mais urgente e mais discutida nas relações russo-americanas. Por esse motivo é que sou obrigado a falar sobre este assunto com mais detalhes. De facto, ocorreram mudanças preocupantes no mundo, desde que o Tratado foi assinado, em 1987. Muitos países desenvolveram e continuam a desenvolver estas armas, mas a Rússia ou os EUA não o fizeram – limitamo-nos, a esse respeito, por livre e espontânea vontade. Compreensivelmente, esse estado de coisas levanta questões. Os nossos parceiros americanos deveriam tê-lo dito com honestidade, em vez de fazerem acusações forjadas contra a Rússia, para justificar a sua retirada unilateral do Tratado.
Teria sido melhor se tivessem feito o que fizeram em 2002, quando abandonaram o Tratado ABM e o fizeram, aberta e honestamente. Se foi bom ou mau, é outro assunto. Penso que foi mau, mas eles fizeram-no e é o que aconteceu. Desta vez, também deveriam ter feito o mesmo. O que é que eles estão, realmente, a fazer? Primeiro, violam tudo, depois procuram desculpas e acusam a outra parte de ser culpada. Mas também estão a mobilizar os seus Estados satélites que são cautelosos, mas ainda fazem barulho em apoio aos EUA. Ao princípio, os americanos começaram a desenvolver e a usar mísseis de médio alcance, designando-os como “mísseis alvo” para defesa anti-mísseis. Depois, começaram a instalar sistemas de lançamento universal Mk-41, que podem possibilitar o uso de combate ofensivo dos Tomahawk, mísseis de cruzeiro de médio alcance.
Estou a falar sobre este assunto e a usar o meu tempo e o vosso, porque temos de responder às acusações que nos são feitas. Mas tendo feito tudo o que acabei de descrever, os americanos ignoraram, completamente, as disposições previstas pelos Artigos 4 e 6 do Tratado INF. De acordo com a Cláusula 1, do Artigo VI (estou a citar): “Cada Parte eliminará todos os mísseis de alcance intermédio e os lançadores de tais mísseis… de modo que… nenhum desses mísseis e lançadores… será possuído por nenhuma das Partes”. O parágrafo 1 do Artigo VI estabelece que (e passo a citar): “Após a entrada em vigor do Tratado e posteriormente, nenhuma das Partes poderá produzir ou testar em voo, qualquer míssil de alcance intermédio ou produzir quaisquer estágios ou lançadores de tais mísseis”. Fim da cotação.
Ao utilizar mísseis-alvo de médio alcance e ao instalar lançadores na Roménia e na Polónia que são adequados para o lançamento de mísseis de cruzeiro Tomahawk, os EUA violaram abertamente essas cláusulas do Tratado. Eles fizeram-no há algum tempo. Esses lançadores já estão estacionados na Roménia e nada acontece. Parece que nada está a acontecer. Isso é mesmo estranho. Não é completamente estranho para nós, mas as pessoas devem ser capazes de ver e compreender.
Como é que estamos a avaliar a situação neste contexto? Já disse e quero repetir: a Rússia não pretende - e isto é muito importante, estou a repeti-lo de propósito - a Rússia não pretende ser a primeira a colocar esses mísseis na Europa. Se eles realmente forem construídos e instalados no continente europeu, e os Estados Unidos têm planos para fazê-lo, pelo menos não ouvimos o contrário, irá exacerbar dramaticamente a situação de segurança internacional e criará uma séria ameaça à Rússia, porque alguns deles mísseis podem chegar a Moscovo em apenas 10 a 12 minutos. É uma ameaça muito perigosa para nós. Neste caso, seremos forçados, gostaria de salientar, seremos forçados a responder com acções idênticas ou assimétricas. O que é que isto significa?
Estou a dizê-lo, directa e abertamente, agora, para que ninguém possa culpar-nos mais tarde, para que fique claro para todos, com antecedência, o que está a ser dito aqui. A Rússia será forçada a criar e instalar armas que possam ser usadas, não apenas nas áreas onde somos ameaçados directamente, mas também nas áreas que contenham centros de tomada de decisão para os sistemas de mísseis que nos ameaçam.
O que é importante a este respeito? Há alguma informação nova. Estas armas corresponderão totalmente às ameaças dirigidas contra a Rússia nas suas especificações técnicas, incluindo os tempos de vôo para esses centros de tomada de decisão.
Sabemos como fazê-lo e accionaremos esses planos imediatamente, logo que as ameaças para nós se tornarem reais. Não creio que precisemos de mais nenhuma exacerbação irresponsável da situação internacional actual. Não queremos fazê-lo.
O que é que gostaria de acrescentar? Os nossos colegas americanos já tentaram obter superioridade militar absoluta com o seu projecto global de defesa antimíssil. Eles precisam não ter mais ilusões. A nossa resposta será sempre eficiente e eficaz.
O trabalho sobre protótipos promissores e sistemas de armas sobre os quais falei no meu discurso do ano passado, continua conforme programado e sem interrupções. Lançamos a produção em série do sistema Avangard, que já mencionei hoje. Como foi planeado, este ano, o primeiro regimento de Tropas de Mísseis Estratégicos será equipado com o Avangard. O míssil intercontinental super-pesado Sarmat, de potência sem precedentes, está a ser submetido a uma série de testes. A arma laser Peresvet e os sistemas de aviação equipados com mísseis balísticos hipersónicos Kinzhal, deram prova das suas características únicas durante as missões de alerta de teste e combate, enquanto o pessoal aprendia a manobrá-los. No próximo mês de Dezembro, todos os mísseis Peresvet fornecidos às Forças Armadas serão colocados em alerta. Continuaremos a expandir a infraestrutura dos interceptores do MiG-31,com capacidade de transportar mísseis Kinzhal. O míssil de cruzeiro nuclear Burevestnik de alcance ilimitado e o veículo submarino não tripulado nuclear Poseidon, de alcance ilimitado, estão a ser submetidos a testes, com sucesso.
Neste contexto, gostaria de fazer uma declaração importante. Não o anunciamos antes, mas podemos dizer hoje que, nesta primavera, será lançado o primeiro submarino movido a energia nuclear transportando este veículo não tripulado. O trabalho está a prosseguir como foi planeado.
Hoje também penso que posso informar-vos, oficialmente, sobre outra inovação promissora. Como se podem recordar, da última vez eu disse que tínhamos algo mais para mostrar, mas era um pouco cedo para fazê-lo. Então vou revelar, pouco a pouco, o que mais temos na manga. Outra inovação promissora, que está a ser desenvolvida com sucesso, de acordo com o planeado, é o Tsirkon, um míssil hipersónico que pode atingir velocidades de aproximadamente Mach 9 e atingir um alvo a mais de 1.000 km de distância, tanto debaixo d'água quanto no solo. Pode ser lançado a partir da água, de navios de superfície e de submarinos, incluindo aqueles que foram desenvolvidos e construídos para transportar mísseis Kalibr de alta precisão, o que significa que, para nós, não existe custo adicional.
Numa nota relacionada, quero ressaltar que, para a defesa dos interesses nacionais da Rússia, dois ou três anos antes do cronograma estabelecido pelo programa estatal de armamentos, a Marinha Russa receberá sete novos submarinos polivalentes e a construção começará com cinco embarcações projectadas para oceano aberto. Dezasseis embarcações suplementares desta classe, entrarão em serviço na Marinha Russa, até 2027.
Para concluir, sobre a retirada unilateral dos EUA do Tratado sobre a Eliminação de Mísseis de Alcance Intermédio e de Curto Alcance, aqui está o que eu gostaria de dizer: A política dos EUA em relação à Rússia, nos últimos anos, dificilmente pode ser considerada amigável. Os interesses legítimos da Rússia estão a ser ignorados, há campanhas constantes contra a Rússia e cada vez mais sanções, que são ilegais nos termos do Direito Internacional e são impostas sem nenhum motivo. Deixem-me salientar que não fizemos nada para provocar estas sanções. A arquitetura de segurança internacional que tomou forma nas últimas décadas está a ser completa e unilateralmente desmantelada, ao mesmo tempo que refere a Rússia, como sendo, práticamente, a principal ameaça contra os EUA.
Deixem-me dizer abertamente que isso não é verdade. A Rússia quer ter relações sólidas, iguais e amistosas com os EUA. A Rússia não está a ameaçar ninguém e tudo o que fazemos em termos de segurança, é simplesmente uma resposta, o que significa que as nossas ações são defensivas. Não estamos interessados em confrontos e não o queremos, especialmente com um poder global como os Estados Unidos da América. No entanto, parece que nossos parceiros não percebem a profundidade e o ritmo das mudanças em todo o mundo e para onde estão indo. Eles continuam com a sua política destrutiva e claramente equivocada. O que, dificilmente, vai ao encontro dos interesses dos próprios EUA. Mas, não cabe a nós, decidirmos.
Podemos ver que estamos a lidar com pessoas pró-activas e talentosas, mas dentro da elite, há também muitas pessoas que têm uma fé excessiva no seu excepcionalismo e supremacia sobre o resto do mundo. Claro que têm o direito de pensar o que quiserem. Mas eles sabem contar? Provavelmente, sim. Então, deixem que eles calculem o alcance e a velocidade dos nossos futuros sistemas de armas. É tudo o que pedimos: primeiro façam as contas e depois, tomem as decisões que criem novas ameaças perigosas para o nosso país. Escusado será dizer que estas decisões levarão a Rússia a responder a fim de garantir a sua segurança de forma fiável e incondicional.
Já disse e vou repetir: Estamos prontos para entabular conversações sobre desarmamento, mas jamais iremos bater a uma porta fechada. Esperaremos até que os nossos parceiros estejam preparados e conscientes da necessidade de dialogar sobre este assunto.
Continuamos a desenvolver as nossas Forças Armadas e melhorar a intensidade e a qualidade de treino de combate, em parte, usando a experiência que adquirimos na operação anti-terrorista na Síria. Foi adquirida muita experiência por praticamente todos os comandantes das Forças Terrestres, pelas forças de operações secretas e pela polícia militar, pelas tripulações dos navios de guerra, pelo exército, pela aviação táctica, estratégica e de transporte militar.
Gostaria de salientar, novamente, que precisamos de paz para um desenvolvimento sustentável a longo prazo. Os nossos esforços para aumentar a nossa capacidade de defesa têm, apenas, um propósito: garantir a segurança deste país e dos nossos cidadãos, para que ninguém sequer pensar em nos pressionar ou lançar uma agressão contra nós.
Colegas, estamos perante metas ambiciosas. Estamos a abordar soluções de maneira sistemática e consistente, a construir um modelo de desenvolvimento socio-económico que nos permitirá assegurar as melhores condições para a auto-realização da nossa gente e, assim, fornecer respostas adequadas aos desafios de um mundo que está a mudar rapidamente, e estamos a preservar a Rússia como uma civilização e com identidade própria, enraizada em tradições seculares e na cultura do nosso povo, dos nossos valores e costumes. Claro que só seremos capazes de alcançar os nossos objectivos, combinando os nossos esforços, juntamente com uma sociedade unida, se todos nós, todos os cidadãos da Rússia, estivermos dispostos a ter sucesso em empreendimentos específicos.
Tal solidariedade na luta pela mudança é sempre a escolha deliberada das pessoas. Elas fazem essa escolha quando compreendem que o desenvolvimento nacional depende delas, dos resultados do seu trabalho, quando o desejo de serem necessárias e úteis goza de apoio, quando todos encontram um trabalho por vocação com o qual se sentem felizes e o que é mais importante, quando existe justiça e um vasto espaço de liberdade e igualdade de oportunidades de trabalho, estudo, iniciativa e inovação.
Esses parâmetros para desenvolver descobertas não podem ser traduzidos em números ou indicadores, mas são estas coisas - uma sociedade unificada, pessoas envolvidas nos negócios do seu país e uma confiança comum no nosso poder - que desempenham o papel principal para alcançar o sucesso. E, se for necessário, alcançaremos esse sucesso de qualquer maneira.
Grato pela vossa atenção.
Soa o Hino Nacional. 



CONVITE PARA A CONVENÇÃO INTERNACIONAL
DO 70º ANIVERSÁRIO DA NATO







Tradutora: Maria Luísa de Vasconcellos

Saturday, October 20, 2018

VLADIMIR PUTIN na Reunião do Clube Internacional de Debates Valdai

 



Vladimir Putin participou na sessão plenária da reunião do 15º aniversário do Clube Internacional de Debates Valdai.
18 de Outubro de 2018
17:50
Sochi
At the plenary session of the 15th anniversary meeting of the Valdai International Discussion Club.
O tema principal é O Mundo Em Que Viveremos: Estabilidade e Desenvolvimento no Século XXI. O moderador da sessão plenária é Fyodor Lukyanov, Director de Pesquisa da Fundação para o Desenvolvimento e Apoio, do Clube de Debates Valdai.
O Fórum Valdai abriu em Sochi, em 15 de Outubro. Os participantes - 130 especialistas de 33 países - estão discutindo as perspectivas políticas e socio-económicas da Rússia, bem como o desenvolvimento social e cultural e o seu lugar no mundo moderno.
O Club Valdai foi fundado em 2004. Tradicionalmente, os participantes do fórum reúnem-se com altos funcionários da Rússia, que fazem parte das reuniões anuais.
* * *
Reunião do Clube Internacional de Debates Valdai
Fyodor Lukyanov, moderador da sessão plenária : Boa tarde, Amigos,
Vamos começar a nossa sessão final. De acordo com a tradição, temos aqui o Presidente da Rússia, Vladimir Putin, como nosso convidado.
Senhor Presidente, caso se tenha esquecido, está aqui pela 15ª vez. Como está?
Presidente da Rússia, Vladimir Putin: Em primeiro lugar, gostaria de falar com os participantes permanentes da nossa reunião. É verdade, 15 anos já é alguma coisa. Acredito que o  Clube Valdai, como o chamamos, porque os primeiros eventos ocorreram em Novgorod, se tornou uma boa plataforma internacional ao longo destes anos, uma plataforma para profissionais interessados em política global, economia, cultura e trabalho da comunicação mediática (br. Mídia). Claro que, em relação à Rússia.
Em regra, são peritos sobre assuntos da Rússia. E gostaríamos muito que as pessoas que trabalham com a Rússia tivessem tal plataforma, para pudermos encontrar-nos e puderem ouvir a nossa posição sobre todos os assuntos de interesse para vós, para os vossos países e para nós, para a Rússia, não através de interpostas pessoas, mas em primeira mão, de mim e dos meus colegas.

Sunday, September 16, 2018

NA PRIMEIRA PESSOA -- PARTE 4 -- O JOVEM ESPECIALISTA

 



NA PRIMEIRA PESSOA
Parte 3  

O Estudante Universitário


PARTE 4
O JOVEM ESPECIALISTA

Depois de um período de contra-espionagem com alguns membros intransigentes da linha dura, Putin é enviado para o Andropov Red Banner Institute, em Moscovo, para treino adicional. Os polícias apercebem-se rapidamente do estagiário inteligente e imperturbável. Ofereceram-lhe um lugar na mais cobiçada das divisões: espionagem estrangeira. Entretanto, ele conhece uma hospedeira de bordo deslumbrante, Lyudmila. Impressiona-a com bilhetes de teatro difíceis de obter para três noites, adquiridos através das suas ligações com a KGB. O namoro dura três anos. Casam-se e são transferidos para a primeira missão de Putin no estrangeiro: Dresden, na Alemanha Oriental.

V.P.:No início, designaram-me para a Secretaria da Directoria e depois para a divisão de contraespionagem, onde trabalhei durante cerca de cinco meses.
Foi como imaginou que seria? O que estava à espera?
Não, claro que não era como eu imaginava. Afinal, acabara de chegar da universidade. E, de repente, estava rodeado por funcionários idosos que tinham trabalhado durante aqueles momentos inesquecíveis. Alguns deles estavam quase a reformar-se.
Certa vez, um grupo estava a elaborar um cenário. Fui convidado para participar na reunião. Não me lembro dos detalhes, mas um dos agentes veteranos disse que o plano deveria ser seguido de tal e tal forma. E eu disse: “Não, não está certo”. “O que é que está a dizer?” perguntou, voltando-se para mim. “É contra a lei”, respondi. Ele foi apanhado de surpresa. “Que lei?” Eu citei a lei. “Mas temos instruções”, retorquiu. Citei mais uma vez essa lei. Os homens na sala pareciam não compreender o que eu estava a referir. Sem um laivo de ironia, o funcionário idoso disse: “Para nós, as instruções são a lei prevalecente.” E era assim. Foi dessa maneira que eles foram criados e foi assim que funcionaram. Mas, eu não podia, simplesmente, fazer as coisas dessa maneira. E não era só eu. Praticamente todos os meus colegas sentiam o mesmo.
Durante vários meses, examinei minuciosamente as formalidades e derrubei alguns casos. Fui enviado para treino de agente durante seis meses. A nossa escola em Leningrado não era demasiado notável. Os meus superiores acreditavam que eu havia dominado o básico, mas que precisava de alguma preparação no terreno. Então, estudei em Moscovo e depois regressei a Petersburgo, para uma divisão de contra-espionagem, durante cerca de meio ano.
Em que ano?
Em que ano? Foi no final da década de 1970. As pessoas dizem agora que foi quando Leonid Brezhnev começou a apertar o cinto. Mas não se notava muito.
Aderiu ao Partido Comunista enquanto estava no KGB?
Para aderir aos serviços secretos tinha de ser membro do partido. Não havia excepções. Essa regra dava origem a episódios estranhos. Por exemplo, se uma pessoa tivesse trabalhado numa unidade de segurança durante menos de um ano e fosse transferida para outra unidade. No período intermédio, estava fora da alçada do Komsomol. Era impossível admiti-lo no partido porque ninguém podia conceder-lhe uma recomendação. Para receber uma recomendação, deveria ter trabalhado numa unidade durante, pelo menos, um ano. Portanto, ninguém conhecia essa pessoa durante um período de um ano, portanto, ninguém poderia recomendá-lo para ser membro do partido. Não podia ser admitido no Komsomol devido à sua idade e não podia ser incorporado no partido. Um funcionário dos serviços secretos tem de ser membro do partido, então ele era demitido do serviço. É ridículo, mas é verdade.
Dizem que as pessoas da segurança não gostavam dos nomeados do partido.
É verdade. Os nomeados pelo partido não eram apreciados. As pessoas que se filiavam nos serviços secretos, depois de serem funcionários do partido a tempo inteiro, revelavam-se invariavelmente boas para não fazer nada, preguiçosas e carreiristas. Havia todos os tipos, mas eles geralmente tinham egos inflados. Foram transferidos imediatamente de algum posto de nível médio dentro do partido, para um posto de destaque no KGB. Imaginavam-se apenas como grandes directores e não queriam ser operacionais. Claro que causaram sempre ressentimento entre os profissionais.
Quais eram as outras coisas que causavam ressentimento entre os profissionais?
De facto, sei que eles se ressentiram quando os artistas não estabelecidos foram importunados. Em Moscovo, eles usaram escavadeiras para destruir as pinturas. Ainda não compreendi quem teve essa ideia. Talvez algum membro de um departamento ideológico das comissões regionais ou centrais do partido. O KGB desaprovou, dizendo que era algo estúpido de se fazer, mas um indivíduo do departamento ideológico da Comissão Central, em Moscovo, adoptou uma atitude firme, por razões que não consigo entender. Penso que ele era apenas conservador. E como o KGB era uma divisão altamente conceituada do partido, eles tinham de fazer o que o partido lhes dizia.
Será que pensava da mesma maneira?
Para o melhor ou para o pior, nunca fui um separatista. A minha carreira estava a orientar-se bem. Mas você sabe, muitas acções que as nossas autoridades judiciárias começaram a fazer desde os anos 90 eram absolutamente impossíveis naquela época. Eram mais rigorosos. Vou dar-lhe um exemplo. Vamos dizer que um grupo de dissidentes estava a reunir-se em Leningrado, para algum tipo de protesto. Vamos dizer que estava programado para coincidir com o aniversário de Pedro, o Grande. Geralmente, os dissidentes em Peter programavam as suas demonstrações para coincidir com essas datas. Também gostavam dos aniversários dos dezembristas

Sunday, July 15, 2018

NA PRIMEIRA PESSOA -- PARTE 3 -- O ESTUDANTE UNIVERSITÁRIO

 





PARTE 3
O ESTUDANTE UNIVERSITÁRIO 
Putin estuda afincadamente na universidade, mas ainda consegue tempo para atravessar Leninegrado no seu carro Zaporozhets e competir em torneios de judo. Durante o verão trabalha na construção civil com os seus amigos. Tem romances e separações, mas a sua paixão primordial permanece intacta: encontrar um caminho para o KGB.
Foi difícil entrar para a universidade?
Sim, foi, porque havia 100 vagas e apenas 10, estavam reservadas para alunos do ensino médio. O resto era para o pessoal do exército. Portanto, para nós, os do secundário, a competição era dura; algo como 40 alunos para cada vaga. Tive um B em composição, mas A em todas as outras disciplinas e fui aceite. A propósito, nessa época, não tive em consideração a média total do candidato. Portanto, no 10º ano, pude dedicar-me completamente às disciplinas que tinha de passar para entrar na universidade. Se não tivesse posto de parte as outras disciplinas, não teria entrado.
Graças a Deus,tínhamos professores muito inteligentes com tácticas duras, na nossa escola. O seu principal objectivo era preparar os alunos para entrar na Faculdade. Logo que perceberam que eu não ia ser químico e que queria seguir humanidades, não interferiram. De facto, foi o contrário, eles aprovaram.
É evidente que estudou aplicadamente na universidade, tendo em vista o seu futuro?
Sim, estudei arduamente. Não me envolvi em actividades extracurriculares. Não era um funcionário Komsomol.
A sua remuneração era suficiente para cobrir as suas despesas básicas?
Não, não era suficiente. Ao princípio, os meus pais tiveram de me ajudar. Eu era estudante e não tinha dinheiro suficiente. Podia ter ganho dinheiro extra, trabalhando na construção civil, como muitos. Mas qual teria sido o objectivo? Estive numa equipa de construção,  uma vez.
Fui para Komi, onde abati árvores para uma indústria de serração e reparação de casas. Acabei o trabalho e eles deram-me im pacote de dinheiro, provavelmente, 1.000 rublos. Nesses dias, um carro custava 3.500 a 4.000 rublos. Mas por mês e meio de trabalho, eles pagaram-me 1.000 rublos. Na verdade, uma porção de dinheiro fantástica.
Ganhámos o nosso dinheiro. Então tínhamos de gastá-lo em alguma coisa. Os meus dois amigos e eu, fomos para Gagry de férias, sem mesmo parar em Leninegrado. Chegámos lá e no primeiro dia ficamos embriagados, por ter procurado e consumido kebabs com vinho do Porto. Depois pensámos no que fazer a seguir. Onde poderíamos passar a noite? Provavelmente havia alguns hotéis, mas não esperávamos encontrá-los. Já noite avançada, encontrámos uma senhora idosa que concordou ficar connosco e ceder-nos um quarto.
Passámos alguns dias a nadar, bronzear e a desfrutar um descanso merecido. Mas em breve, tivémos de sair de lá e regressar a casa. Estávamos sem dinheiro. Arquitectámos um plano; iríamos encontrar lugares no convés de um navio a vapor a caminho de Odessa. Então tomávamos um comboio para Peter, comprando bilhetes para os beliches de cima, nas carruagens-cama, que eram mais baratos.
Juntámos os trocados e percebemos que só tínhamos alguns trocados deixados para a compra de provisões. Decidímos comprar tushonka, uma espécie de guisado enlatado, para a viagem. Um dos meus companheiros era mais cuidadoso com o dinheiro do que o outro, que era um gastador. Quando dissémos ao nosso amigo mais poupado que ele devia partilhar a massa, ele pensou um minuto e depois disse: “Essa carne estufada é um bocado dura para o meu estomago. Não é a comida apropriada para comprar. Nos dissémos: “Seja como for. Vamos indo”
Quando chegámos às docas, havia uma grande multidão. O navio era enorme, um bonito paquete transatlânticobranco. Disseram-nos que eram permitidos apenas, os passageiros com bilhetes para as cabines e os que tivéssem assentos no convés ainda não eram admitidos. Todos os passageiros do convés tinham bilhetes pequenos  de cartão, mas nós tínhamos bilhetes maiores, semelhantes aos dos passageiros de primeira classe. O meu amigo que tinha recusado juntar o dinheiro para a carne enlatada disse: “Sabem, não gosto do aspecto disto. Penso que não vai resultar. Vamos tentar entrar agora. Eu disse:" É estranho, vamos ficar aqui e esperar a nossa vez." Ele disse: "Bem, podes ficar se quiseres. Nós vamos entrar. "Então eles foram embarcar no navio e, claro, corri atrás deles.
O cobrador dos bilhetes perguntou-nos que bilhetes tínhamos. “Temos os grandes,” respondemos. Ele acenou-nos para entrar.
Então, deixaram-nos entrar a bordo com os passageiros de primeira classe. Depois, o contramestre ou alguém, gritou: “Há mais passageiros da primeira classe?”A multidão na doca permanecia silenciosa. Ele tornou a perguntar: “Estão apenas os passageiros do convés?” A multidão, que esperava ser admitida, gritou emocionada: “Sim, só passageiros do convés!” Ao que ele gritou: “Ergam a prancha!”
Eles ergueram a escadaria de acesso e de repente, o pânico ocorreu no cais. As pessoas estavam furiosas. Tinham sido enganadas. Tinham pago dinheiro e agora não os deixavam entrar no barco.
Mais tarde foi-lhes dito que havia excesso de carga e que o navio estava cheio.
 Se não tivéssemos entrado a bordo quando o fizémos, teríamos ficado na doca. E não tínhamos nem uma única moeda. Não sei o que teríamos feito.
Então, instalámo-nos nos barcos salva-vidas, que pairavam sobre a água. E foi assim que chegámos a casa, como se estivéssemos deitados em redes. Durante duas noites, olhei para o céu e não consegui desviar os olhos. O navio continuou navegando e as estrelas pareciam penduradas muito perto. Sabem o que quero dizer? Os marinheiros podem estar acostumados, mas para mim foi uma descoberta maravilhosa.
Naquela primeira noite, observámos os passageiros das cabines. O que nos deixou um pouco melancólicos ao ver quão maravilhosas eram as suas vidas. Tudo o que tínhamos eram os barcos salva vidas, as estrelas e as latas de tushonka.
O nosso amigo poupado não tinha carne enlatada. Não aguentou mais e foi ao restaurante. Mas os preços lá eram tão altos que voltou rapidamente e disse com indiferença: "Bem, suponho que não me importaria de levar uma pequena lata de tushonka para baixo". Mas o meu outro amigo, que cumpria rigorosamente as regras, disse: "Sabes, tens de ter cuidado com o teu estômago. Não é bom para ti”. Então o amigo parcimonioso, depois disso, passou fome durante um dia. Claro que foi cruel, mas também foi justo.
Quando fui para a universidade, comecei a concentrar-me nos meus estudos. O atletismo ficou em segundo lugar. Mas treinei regularmente e participei em todas as competições da União, embora, na verdade, fosse apenas por hábito.
Em 1976, tornei-me campeão intercidades. As pessoas da nossa secção incluíam não apenas amadores, como eu, mas também profissionais e campeões europeus e olímpicos, tanto no sambo como no judo.
Classifiquei-me como Mestre cinturão negro de sambo depois de entrar na universidade e, dois anos depois, Mestre de judo. Não sei como é hoje em dia, mas naquela época era necessário obter um certo número de vitórias sobre os oponentes de um certo nível e participar em competições sérias. Por exemplo, tinha de estar entre os três primeiros na cidade ou conseguir o primeiro lugar em todas as competições do Trud.
Lembro-me muito bem de algumas partidas. Depois de uma delas eu não conseguia nem respirar. O meu adversária era um atleta forte e eu tinha usado tanta energia que apenas chiava, em vez de inspirar e expirar. Ganhei, mas apenas por uma pequena margem.
Houve uma ocasião em que perdi num combate com o campeão mundial, Volodya Kullenin. Mais tarde ele começou a beber muito e foi assassinado na rua. Mas, na universidade, era um óptimo atleta, realmente brilhante e talentoso. Ainda não tinha começado a beber quando lutei com ele. Estávamos a competir pelo campeonato da cidade. Ele já era campeão mundial. Imediatamente, durante os primeiros minutos, lancei-o sobre as minhas costas e fi-lo graciosamente, com facilidade. Em princípio, o jogo deveria ter terminado naquele momento, mas como Kullenin era campeão mundial, não teria sido correcto parar a luta. Então deram-me alguns pontos e continuamos. É claro que Kullenin era mais forte que eu, mas lutei muito. Segundo as regras desta arte marcial, qualquer tipo de grito é considerado um sinal de derrota. Quando Kullenin torceu o meu cotovelo para trás, o juiz pareceu escutar alguns grunhidos meus. Então Kullenin foi declarado o vencedor. Recordo esse jogo até hoje. Não tive vergonha de perder com um campeão mundial.
Houve outra partida que  vou recordar para o resto da minha vida, embora não tenha participado. Tinha um amigo na universidade com quem conversei para ele entrar no ginásio. Primeiro  treinou judo e fê-lo muito bem. Uma vez houve uma competição e ele estava a lutar. Ele deu um pulo para a frente e caiu de cabeça no tapete. As vértebras estavam deslocadas e ele estava paralisado. Morreu 10 dias depois no hospital. Era um colega excelente. E arrependo-me, até hoje,  de tê-lo levado para o judo. . . .
Traumas como este foram bastante frequentes durante as competições e partidas. As pessoas quebravam braços ou pernas. Os jogos eram uma forma de tortura. E o treino também era difícil. Costumávamos ir a um centro atlético nos arredores de Leningrado, no lago Khippiyarvi. É um lago razoavelmente grande, com cerca de 17 quilómetros de largura. Todas as manhãs, quando nos levantávamos, corríamos primeiro ao redor do lago. Depois da corrida, havia exercício, depois treino, café da manhã, mais treinos, almoço, descanso depois do almoço e depois, novamente, exercícios.
Costumávamos viajar bastante pelo país. Uma vez fomos a uma partida na Moldávia, em preparação para a competição dos Spartakiad dos povos da URSS. Estava terrivelmente quente. Eu estava a sair do nosso treino com o meu amigo Vasya e havia vinho à venda em todos os lugares. Ele disse-me: “Vamos beber uma garrafa de vinho cada um”. “Está muito calor”, respondi. “Então vamos descontrair”, disse ele. "Tudo bem, tudo bem. Vamos beber um pouco de vinho", respondi.
Cada um de nós pegou numa garrafa, voltamos para o nosso quarto e aterramos nas nossas camas. Ele abriu a garrafa dele. “Está demasiado calor”, disse. “Não vou beber.” "Não mesmo?" ele perguntou. "Ok, faz como entenderes”.  E esvaziou a garrafa. Então ele olhou para mim e perguntou: “Tens a certeza de que não vais beber nenhum?” “Sim, tenho a certeza”, respondi. Então ele pegou na segunda garrafa e esvaziou-a. Colocou as garrafas vazias na mesa e apagou, instantaneamente, como uma luz. De repente, lá estava ele, a ressonar. Realmente arrependi-me de não ter bebido com ele! Eu dei voltas e  mais voltas. Não consegui aguentar mais e abanei-o levemente. “Ei, tu aí. Estás a ressonar, para com isso! Estás a roncar como um elefante”. 
Foi uma excepção, porque beber torna os treinos muito mais difíceis. Havia um tipo enorme que treinava connosco. Chamava-se Kolya. Não só era gigantesco, mas tinha um semblante incrível. Tinha um queixo proeminente que se projectava para frente e sobrancelhas enormes. Uma noite, alguns rufias começaram a cercá-lo num beco escuro e ele disse: "Gente, acalmem-se. Aguentem um segundo". Então pegou num fósforo, raspou-o e segurou-o perto do rosto. "Basta olhar para mim", disse ele. E esse foi o fim desse incidente.
Sergei Roldugin (solista da Orquestra Sinfónica do Teatro Mariinsky, amigo da família Putin e padrinho da filha mais velha de Putin, Masha):
O Volodya foi para a escola com o meu irmão. Quando me mudei para Leningrado,o meu irmão falou-me do Vovka. Trouxe-o para nossa casa e demo-nos bem. Penso que foi em 1977. Depois, ele tornou-se um irmão para mim. Quando não tinha para onde ir, ia até a casa dele.Comia e dormia lá.
Fui convocado para o exército e servi em Leningrado. Uma vez, Vovka veio ver-me no seu Zaporozhets. Saltei a vedação e abandonei o meu posto sem permissão. Passeamos em Leningrado durante toda a noite. O tubo de escape estava danificado e nós andámos às voltas, cantando cantigas. Até me lembro da música que cantámos:
"Nós tivemos apenas uma noite,
O comboio de alguém foi embora esta manhã
E depois o avião de alguém partiu um pouco depois. . . "
VP: Nós cantámos e cantámos muito alto, sem inibições. Afinal de contas, o tubo de escape estava partido. Uma vez minha mãe recebeu um bilhete de lotaria estatal, em vez do troco, numa cafetaria e ganhou um carro Zaporozhets. Eu estava no terceiro ano da universidade e não conseguímos decidir o que fazer com aquele carro durante muito tempo, visto que vivíamos muito modestamente. Eu acabara de comprar o meu primeiro casaco quando voltei de trabalhar nas obras, um ano depois das férias, com os meus amigos em Gagry. Foi o meu primeiro casaco decente. O dinheiro era escasso na nossa família e dar-me o carro era uma loucura completa. Poderíamos tê-lo vendido e conseguido pelo menos 3.500 rublos por ele. O que teria resolvido o nosso orçamento familiar com bastante antecedência. Mas os meus pais decidiram mimar-me. Deram-me o Zaporozhets. Diverti-me bastante  com aquele carro. Costumava conduzir para todos os lugares, até mesmo para as minhas lutas.
Era um condutor destemido, mas receava ter um acidente com o carro. Como iria consertá-lo?
No entanto, uma vez teve um acidente. Atropelou um homem.
Não foi por minha culpa. Ele saltou para a minha frente ou algo assim. . . . Decidiu pôr fim à vida. . . . Não sei o que é que ele estava a fazer. Era idiota. Fugiu depois de eu lhe ter batido.
Dizem que o perseguiu.
O quê? Pensa que eu bati num fulano com meu carro e que tentei persegui-lo? Não sou uma fera. Saí do carro.
É capaz de permanecer calmo em situações críticas?
Sim, continuo calmo. Mesmo calmo demais. Mais tarde, quando fui para a escola dos serviços secretos/br. inteligência, certa vez recebi uma avaliação, onde eles escreveram o seguinte, como avaliação negativa do caráter: “Uma sensação de perigo diminuída”. Isso era considerado uma falha muito séria. Você tem de ter entusiasmo e estímulo em situações críticas para reagir bem. O medo é como a dor. É um indicador. Se algo dói, significa que algo está errado no seu corpo. É um sinal. Eu tive de trabalhar o meu sentido de perigo durante longo tempo.
É evidente que não é um jogador?
Não, não sou um jogador.
Perto do final da universidade, fomos para o campo de treino militar. Dois dos meus amigos estavam lá, um dos quais tinha ido a Gagry comigo. Passámos lá dois meses. Era muito mais fácil do que os campos de atletismo e ficámos muito aborrecidos. A principal fonte de entretenimento eram os jogos de cartas. Quem ganhou foi para a aldeia e comprou leite a uma senhora idosa. Recusei-me a jogar, mas os meus amigos não. E perderam tudo rapidamente.
Quando não tinham mais nada, eles vinham implorar algum dinheiro. Eram verdadeiros apostadores. E eu questionava-me: "Devo dar-lhes alguma coisa? Eles só irão perdê-lo”.
E eles diziam: "Escuta, os teus poucos copeques não vão salvar-te, de maneira nenhuma. Por que razão  não nos dás”?  E eu dizia-lhes: “Tudo bem. Afinal, tenho um sentido de perigo diminuto” e dei-lhes o dinheiro.
Caramba, eles ganharam bastante dnheiro! Não podia ter corrido melhor. E fomos comprar leite à senhora todas as noites.
A universidade é uma época de romances. Teve algum?
Quem não teve? Mas nada sério . . . a não ser uma vez.
Primeiro amor?
Sim. Ela e eu tínhamos planeado dar o nó.
Quando é que aconteceu?
Cerca de quarto anos antes de eu casar.
Então não resultou?
Claro que não.
O que é que surgiu? 
Algo. Alguma intriga ou algo parecido.
Ela casou-se?
Com alguém? Sim, mais tarde.
Quem decidiu que não iriam casar?
 Eu. Tomei essa decisão. Já tínhamos os banhos a correr. Estava tudo pronto.
Os nossos pais tinham comprador tudo. O anel, o fato, o vestido de noiva... O cancelamento foi uma das decisões mais difíceirs da minha vida. Foi realmente difícil. Sentí-me uma pessoa detestável. Mas decidí que era melhor sofrer então do que ambos a sofrer mais tarde.
Isto é, fugiu literalmente e deixou-a no altar?
Quase. Só que não fugi. Contei-lhe a verdade tanto quanto considerei necessário.
Quer falar sobre esse assunto?
Não, não quero. É uma história complicada. Foi como foi. Foi realmente difícil.
Tem remorsos?
Não.
   
Sergei Roldugin:
Eu gostava da namorada dele, ela era uma menina bonita; uma estudante de medicina com um caráter forte. Ela era uma amiga para ele, uma mulher que cuidaria dele. Mas será que ela o amava? Não sei. Lyuda, a sua esposa ou Lyudik, como nós lhe chamamos agora, ela realmente ama-o.
Dava muito bem com aquela jovem. Penso que o nome dela também era Lyuda. Ela costumava preocupar-se com a saúde dele. Não era apenas: “Oh, querido, como te sentes?” Ela dizia: “Agora, posso dizer que o teu estômago está a doer”. Não sei o que aconteceu entre eles. Ele não me contou nada. Disse que tudo tinha acabado. Penso que o desentendimento foi apenas entre eles, porque ambos os pais concordaram com a situação.
Vovka sofreu, claro. O facto é que somos ambos do signo Balança e levamos as coisas muito a sério. E naquele momento vi que ele. . . que era uma pessoa muito emocional, mas que simplesmente não conseguia expressar as suas emoções. Costumava dizer-lhe que ele era uma pessoa terrível com quem conversar. Por que motivo é que ele tinha tanta dificuldade em conversar?
Claro,que agora é Cícero, comparado com a maneira como ele se exprimia naquela época. Eu costumava explicar-lhe: “Falas muito depressa. Não deverias falar tão rápido". Sendo artista de palco, pensei que poderia ajudá-lo. Ele tinha emoções muito fortes, mas não conseguia exprimi-las de maneira simples. Considero que a sua profissão deixou uma marca no seu discurso. Agora ele fala lindamente. De maneira expansiva, inteligível e com sentimento. Onde é que ele aprendeu a fazer isso?
Então não colaborou com o KGB enquanto estudava?
Eles nem tentaram recrutar-me como agente, embora fosse uma prática generalizada na época. Muitas pessoas colaboraram com as agências de segurança. A cooperação de cidadãos normais foi uma ferramenta importante para a actividade viável do Estado. Mas o ponto principal era o tipo de base em que essa cooperação era estabelecida. Você sabe o que é um "seksot"?
Significa colega secreto ou colaborador.
Certo. Mas sabe por que adquiriu uma conotação tão negativa?
Ideológica.
Sim, ideológica. Eles fiziam investigação política. Todos pensam que o trabalho dos serviços secretos é interessante. Sabe que noventa por cento de todas as informações dos serviços secretos são obtidas de uma rede de agentes composta de cidadãos soviéticos comuns? Esses agentes decidem trabalhar pelos interesses do Estado. Não importa como designam este trabalho. O importante é: Em que base essa cooperação acontece? Se é baseada em traição e ganho material, é uma coisa. Mas se é baseada em alguns princípios idealistas, então é outra coisa. E quanto à luta contra o banditismo? Não se pode fazer nada sem agentes secretos.
Então, quando é que aderiu ao KGB?
 Durante todos esses anos na universidade, esperei que o homem da secretaria do KGB se lembrasse de mim. Parecia que ele se tinha esquecido de mim. Afinal, eu tinha ido vê-lo quando era ainda um garoto da escola. Quem teria pensado que eu poderia ter essa coragem? Mas recordei que eles não gostavam que as pessoas mostrassem iniciativa própria, então não me dei a conhecer. Permaneci sossegado.
Passaram quatro anos. Nada aconteceu. Pensei que o caso estava encerrado e comecei a procurar outras alternativas para encontrar emprego no gabinete do promotor de Justiça ou como advogado. Ambos são campos de prestígio.
* Este segmento de perguntas e respostas foi publicado em jornais, mas não foi incluído na edição russa do livro de Vladimir Putin, First Person. Várias outras passagens das entrevistas que foram publicadas apenas em jornais, estão incluídas nesta edição em inglês.
Mas então, quando estava no meu quarto ano da universidade, um homem veio e pediu-me para me encontrar com ele. Não disse quem era, mas percebi imediatamente, porque ele disse: “Preciso de falar consigo sobre a sua carreira profissional. Não gostaria de especificar já, exactamente o que é.” Percebi de imediato. Se eles não quisessem dizer aonde, significava que seria lá.
Concordámos encontrar-nos no vestíbulo da Faculdade. Ele estava atrasado. Esperei por cerca de 20 minutos. Bem, eu pensei, que suíno! Ou estaria alguém a pregar-me uma partida? E decidi ir embora. Então, de repente, ele chegou, sem fôlego.
"Sinto muito", disse.
Gostei daquilo.
"Está tudo combinado", disse ele. "Volodya, ainda falta muito tempo, mas como se sentiria se fosse convidado para trabalhar nas agências?" Não lhe contei que sonhara com esse momento desde que andava na escola. Não lhe disse, porque me lembrei da minha conversa na secretaria do KGB, há muito tempo: “Não aceitamos pessoas que nos procuram por sua iniciativa”.
E quando você concordou em trabalhar nas agências, você pensou em 1937?
Para ser sincero, nem pensei em tal. Nem um pouco. Recentemente, encontrei-me com alguns antigos colegas do pessoal da Directoria da KGB com quem trabalhei no começo e falámos sobre a mesma coisa. E posso dizer--lhes o que lhes disse: quando aceitei a proposta do departamento de pessoal da Directoria (na verdade, o meu recrutador era um funcionário da subdivisão que trabalhava com as universidades), não pensei nas purgas [na era de Stalin]. A minha noção do KGB vinha de histórias românticas de espionagem. Eu era um produto puro e totalmente bem-sucedido da educação patriótica soviética.
Não sabia nada sobre as purgas?
Não sabia muito. Sim, claro, eu sabia do culto de personalidade de Stalin. Sabia que as pessoas haviam sofrido e que o culto da personalidade havia sido desmantelado. . . . Não era completamente ingénuo. Tenha em mente que eu tinha 18 anos quando fui para a universidade e que me formei aos 23 anos.
Mas os que se importavam saber, sabiam tudo sobre isso.
Vivíamos sob as condições de um estado totalitário. Tudo estava oculto.
Quão profundo era esse culto da personalidade? Quão grave foi ?
Os meus amigos e eu não pensamos nisso. Então fui trabalhar para as agências com uma imagem romântica do que eles faziam. Mas depois dessa conversa no vestíbulo, não ouvi mais nada. O homem desapareceu. E depois houve um telefonema; um convite para o departamento de pessoal da universidade. Dmitry Gantserov ainda me lembro de seu nome foi o único a falar comigo.
Mas houve quase um deslize na comissão de emprego. Quando chegaram ao meu nome, um representante do Departamento de Direito disse: “Sim, estamos a treiná-lo para exercer num tribunal”. Então o agente que estava a controlar as tarefas dos alunos, de repente acordou, ele estava a dormir num canto. "Oh, não", disse. "Essa questão já foi decidida. Estamos a contratar Putin para trabalhar nas agências do KGB." Ele proferiu isso em voz alta assim, na frente da comissão de trabalho.
E então, vários dias depois, eu estava a preencher todos os tipos de formulários e documentos.
Eles disseram que estavam a contratá-lo para trabalhar noa serviços secretos?
Claro que não. Foi tudo muito sistemático. Eles colocam o assunto da seguinte maneira: “Estamos a propor-lhe que trabalhe no campo para o qual o enviaremos. Você está pronto?” Se o requerente hesitava e dizia que tinha que pensar sobre isso, eles diziam simplesmente : “Ok. Próximo!” E essa pessoa não teria outra oportunidade. Você não pode erguer o nariz e dizer: “Eu quero isto e não quero aquilo”. Eles não podem empregar pessoas assim.
Claro que disse que estava pronto para trabalhar para onde eles o enviassem?
Sim. Claro. E eles mesmos nem sabiam onde eu iria trabalhar. Estavam apenas a contratar novos funcionários. Na verdade, é uma questão de rotina, recrutar pessoal e determinar quem deve ser enviado e para onde. Foi-me feita uma oferta de rotina.
Sergei Roldugin:
Vovka disse-me imediatamente que estava a trabalhar no KGB. Praticamente de imediato. Talvez não devesse fazer isso. Ele disse a algumas pessoas que estava a trabalhar na polícia. Por um lado, eu tratei esses fulanos com cautela, porque tive alguns desentendimentos com eles. Tinha viajado para o estrangeiro e sabia que havia sempre pessoas declaradas como sendo inspectores ou funcionários do Ministério da Cultura. Tínhamos de manter a boca fechada quando estávamos perto deles.
Certa vez contei a um colega meu: "Vamos lá, eles são normais, são bons rapazes". E ele disse: "Quanto mais falar com eles, tanto mais lixo eles terão no seu cadastro, na rua Liteiny."
* 4 Liteiny Street foi o endereço da sede do KGB, em Leningrado e actualmente aloja o sucessor do KGB, o FSB (Serviço Federal de Segurança).
Nunca inquiri Volodya sobre o seu trabalho. Claro que estava curioso. Mas lembro-me de quando decidi encurralá-lo e descobrir algo sobre alguma operação especial. Não cheguei a nenhuma conclusão.  
Mais tarde, disse-lhe: “Sou violoncelista. Tóco violoncelo. Nunca poderia ser um cirurgião. Ainda assim, sou um bom violoncelista. Mas qual é a tua profissão? Sei que és um espião. Não sei o que isso significa. Quem és? O que fazes?”
Ele respondeu: “Sou especialista em relações humanas”. E esse foi o fim da nossa conversa. Realmente, ele pensava que era capaz de julgar personalidades. Quando me divorciei de minha primeira esposa, Irina, ele disse: "Eu previ que seria exactamente assim que aconteceria". Discordei. Não podias saber o que aconteceria entre mim e Irina desde o começo. Mas o seu comentário causou uma grande impressão em mim. Acreditava no que ele dizia: que era especialista em relações humanas.


A seguir:


PARTE 4


O JOVEM ESPECIALISTA

DIRECT LINE

PUTIN

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