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Thursday, April 25, 2019

Encontro com os candidatos após as eleições presidenciais da Federação Russa

 





Vladimir Putin reuniu-se com os candidatos que participaram das eleições presidenciais.
19 de Março de 2018
16:20
Kremlin, Moscovo

Meeting with candidates for post of Russian Federation President.

Presidente da Rússia Vladimir Putin: Boa tarde, colegas.
A campanha eleitoral terminou e eu queria encontrar-me convosco. Espero que hoje falemos, em primeiro lugar, sobre a campanha, e o mais importante, sobre o que necessita ser feito para garantir que todos os elementos positivos (e houve muitos deles durante a campanha eleitoral) sejam levados em consideração, no futuro trabalho prático nos ramos dos poderes executivo e legislativo do governo.
 Claro que uma campanha eleitoral é sempre um período especial. Está associada a emoções especiais e, muitas vezes, elas são bastante esmagadoras. Acontece em quase todos os lugares e nós não somos uma excepção. O principal é que temos a oportunidade de unir esforços no futuro, para um trabalho construtivo em benefício do nosso país.
Reuni-me hoje com os chefes da sede central, os co-presidentes da minha campanha e quero repetir, mais uma vez, a principal tarefa no trabalho futuro do poder executivo, será resolver os problemas internos do país. Em primeiro lugar, significa garantir taxas de crescimento económico, tornando a inovação parte do caráter da nossa economia, resolvendo questões específicas da saúde, educação e ciência, além de garantir a prosperidade do nosso povo, com base nesses elementos.
Este é o objetivo final de qualquer governo na Rússia; não é nada original e, além do mais - a propósito, quase todos vós observaram nas vossas campanhas - temos o problema de uma lacuna entre os que ganham muito, que têm grandes rendimentos e os que vivem humildemente, para dizer o mínimo . O Estado deve fechar essa lacuna e, como disse muitas vezes, reduzir o número de pessoas que vivem abaixo da linha de pobreza, especialmente as que têm emprego. O tipo de situação em que alguém trabalha, mas recebe um pagamento miserável, não deve ser permitido na Rússia.
At a meeting with candidates for post of Russian Federation President.
Obviamente, devemos e teremos de prestar a atenção necessária para fortalecer ainda mais a capacidade de defesa do país. Mas deixem-me dizer-vos que ninguém vai começar uma corrida de armamentos. Pelo contrário, vamos procurar criar relações construtivas com todos os países do mundo. Pretendemos um diálogo construtivo, sem dúvida, e incentivar est processo entre os nossos parceiros.
Mas, é evidente que nem tudo depende de nós. Deve haver interesse de ambos as partes, como no amor, ou não haverá amor. No entanto, nós, do nosso lado, faremos todo o possível por resolver todos os atritos com os nossos parceiros, através dos meios políticos e diplomáticos. Além do mais, de facto, a nossa posição sempre foi e sempre será, lutarmos para defender os nossos interesses nacionais. O nosso pressuposto operacional é de fazermos todo esse trabalho com os nossos parceiros, numa base mutuamente aceitável, mostrando respeito uns pelos outros e pelos nossos interesses nacionais.
Quanto às despesas militares. Existem reduções já planeadas, nas despesas da defesa, neste ano e no próximo. Não irá causar nenhum problema à nossa capacidade de defesa, porque as principais despesas com a criação de sistemas de armas de ponta foram feitas nos anos anteriores. Temos de encaminhar alguns assuntos para uma conclusão lógica e continuar com os projectos actuais, dos quais ainda não falei. Executamos todos os cálculos. O dinheiro que vamos colocar para este fim será suficiente, não haverá aumentos, e não vamos permitir uma nova corrida armamentista. Nós temos tudo, neste sentido, estamos bem fornecidos. No entanto, vamos continuar com os nossos objectivos de forma constante e de acordo com o plano.
At a meeting with candidates for post of Russian Federation President.
É o que gostaria de me concentrar no final do meu monólogo. Falei sobre este ponto, no comício de ontem, se tiveram tempo de assistir e se tomaram conhecimento. Penso que é crucial unir os esforços de todos os partidos políticos, organizações civis, o público no sentido mais amplo da palavra, unir os nossos esforços em torno de um programa positivo, resolver as tarefas que o país enfrenta e superar os desafios que a Rússia tem pela frente. Podem não haver soluções simples;  podem exigir explicações adicionais.
Espero, literalmente, que sejamos sempre guiados pelos interesses a longo prazo da Rússia e do povo russo, colocando as preferências do grupo ou do partido em segundo lugar.
Compreendo que não é fácil, há sempre a tentação de analisar certas decisões tomadas pelo governo que exigem explicações públicas adicionais. Mas aconselho-vos a participarem num diálogo aberto e honesto, que promova os interesses nacionais a longo prazo.
É sobre estes pontos que eu queria começar. Vamos discutir as nossas idéias sobre o que precisamos fazer juntos, a fim de resolver os problemas que o país enfrenta.
<…>

Sunday, June 17, 2018

NA PRIMEIRA PESSOA -- PARTE 1 -- O FILHO

 





PARTE 1 
O FILHO
Putin fala sobre os seus pais, abordando as missões de sabotagem do seu pai, na Segunda Guerra Mundial, o Cerco de Leningrado e a vida num apartamento comunal depois da guerra. Não é fácil - sem água quente, sem casa de banho, um wc fedorento e brigas constantes. Putin passa muito tempo perseguindo ratos com um pau, na escadaria do prédio.

Sei mais sobre a família do meu Pai do que sobre a da minha Mãe. O pai do meu Pai nasceu em São Petersburgo e trabalhou como cozinheiro. Eram uma família muito comum. Um cozinheiro, afinal, é um cozinheiro. Mas, aparentemente meu avô cozinhou bastante bem, porque depois da Primeira Guerra Mundial foi-lhe oferecido um emprego no distrito de The Hills, nos arredores de Moscovo, onde vivia Lenin e toda a família Ulyanov. Quando Lenin morreu, o meu avô foi transferido para uma das dachas de Stalin. Trabalhou lá durante muito tempo.

Não foi vítima das purgas? 

Não, por qualquer razão deixaram-no viver. Poucas pessoas que passaram muito tempo junto de Stalin ficaram a salvo, mas o meu avô foi uma delas. A propósito, sobreviveu a Stalin e, nos últimos anos de aposentadoria, foi cozinheiro do sanatório da Comissão do Partido da Cidade de Moscovo, em Ilinskoye.

Os seus pais falavam muito sobre o seu avô?

Tenho uma recordação nítida de Ilinskoye, porque costumava ir visitá-lo. O meu avô era muito reservado sobre a sua vida passada. O meus pais não também falavam muito sobre o passado. Naquela época, as pessoas geralmente não o faziam. Mas quando os parentes vinham visitar-nos, havia longas conversas ao redor da mesa e eu apanhava alguns episódios, alguns fragmentos da conversa. Mas os meus pais nunca me disseram nada sobre si mesmos. Especialmente o meu Pai. Era um homem muito reservado.

Sei que o meu Pai nasceu em São Petersburgo, em 1911. Depois da Primeira Guerra Mundial, a vida era difícil na cidade. As pessoas estavam a morrer à fome. Toda a família foi para a casa da minha avó na aldeia de Pominovo, na região de Tver. A propósito, a casa dela ainda hoje está de pé; os membros da família ainda passam lá as suas férias. Foi em Pominovo que o meu Pai conheceu a minha mãe. Tinham ambos 17 anos quando se casaram.

Porquê? Houve alguma razão?

Não, efectivamente, não houve. Você precisa de um motivo para se casar? O principal motivo foi o amor. E meu Pai iría para o exército em breve. Talvez cada um deles quisesse algum tipo de garantia. . . . Não sei.

Vera Dmitrievna Gurevich (Professora de Vladimir Putin, da 4ª até à 8ª classe, na Escola nº 193):

Os pais do *Volodya(diminutivo de Vladimir) tinham uma vida muito difícil. Pode imaginar como a sua mãe era corajosa  para dar à luz aos 41 anos? O pai de Volodya, disse-me uma vez: “Um dos nossos filhos teria a sua idade”. Presumi que deviam ter perdido outro filho durante a guerra, mas não me senti à vontade para  lhe perguntar.

Em 1932, os pais de Putin vieram para Peter [St. Petersburgo]. Moravam nos subúrbios, em Peterhof. A mãe foi trabalhar para uma fábrica e o pai foi quase imediatamente convocado para o exército, onde serviu numa frota de submarinos. Um ano depois voltou, tiveram dois filhos. Um morreu alguns meses após o nascimento.

* Os russos usam vários diminutivos para cada nome, dependendo do grau de familiaridade e afecto.Vladimir Putin é chamado frequentemente de Vovka e Volodya pelos amigos e pela família.

Obviamente, quando surgiu a Guerra, o seu pai foi imediatamente para a frente. Ele assentara praça num submarino e acabara de completar o seu período de serviço. . .

Sim, ele foi para a frente como voluntário.

E a sua mãe?

A minha Mãe recusou-se categoricamente a ir para outro sítio. Permaneceu em casa, em Peterhof. Quando se tornou extremamente difícil continuar aí, o irmão dela levou-a para Petersburg. Ele era um oficial da Marinha e servia no quartel general da armada, em Smolny.* Ele veio buscá-la e ao bebé e levou-os debaixo do fogo das armas e das bombas.

* Smolny era um colégio privado de meninas antes da Revolução, quando Lenin se apossou do mesmo e o converteu no quartel general do seu governo revolucionário. Desde então, tem sido a sede do governo local, em S. Petersburg.

E o seu avô, o cozinheiro? Não fez nada para ajudá-los?

Não. Naquela época, as pessoas de um modo geral, não pediam favores. De qualquer maneira, penso que naquelas circunstâncias teria sido impossível. O meu avô tinha muitos filhos, e todos os seus filhos estavam na frente.

Então a sua mãe e o seu irmão saíram de Peterhof, que estava cercado, para Leningrado, que também estava sitíado?

Para onde é que poderiam ir? A minha Mãe disse que tinham sido construídos alguns abrigos em Leninegrad, num esforço para salvar a vida das crianças. Foi num desses abrigos, que o meu irmão apanhou difteria e morreu.

Como é que ela sobreviveu?

O meu tio ajudou-a. Alimentou-a com as suas rações. Houve uma altura em que ele foi transferido para outro lugar durante algum tempo, e ela ficou no limiar da fome. Não é exagero. Uma vez a minha mãe desmaiou de fome. As pessoas pensaram que ela tinha morrido e colocaram-na junto aos cadáveres. Felizmente, a minha Mãe acordou a tempo e começou a gemer. Por milagre, estava viva. Passou por esta situação durante todo o cerco de Leninegrado. Não a tiraram de lá até o perigo passar.

 E onde estava o seu pai?

O meu Pai esteve sempre no campo de batalha. Tinha sido enviado para um batalhão de demolições do NKVD. Esses batalhões estavam empenhados em sabotagem, por trás das linhas alemãs. O meu Pai tomou parte nessa operação. Havia 28 pessoas nesse grupo.

Foram lançados em Kingisepp. Observaram atentamente as imediações, colocaram-se em posição na floresta, e conseguiram explodir um paiol de munições antes de ficarem sem mantimentos. Encontraram alguns residentes locais, Estonianos, que lhes trouxeram comida, mas mais tarde, entregaram-nos aos alemães.

Praticamente, não tiveram oportunidade de sobreviver. Os alemães cercaram-nos por todos os lados e só alguns, incluindo o meu Pai, conseguiram escapar. Depois começou a caça. Os que restavam da unidade, dirigiram-se para a linha da frente. Perderam alguns durante o caminho e decidiram dividir-se. O meu Pai saltou para dentro de um pântano, submerso até à cabeça e respirou através de um junco ôco até os cães terem passado. Foi como sobreviveu. Só 4 dos 28 homens da sua unidade regressaram a casa.

Depois encontrou a sua mãe? Ficcaram juntos? 

Não, não teve a oportunidade de procurá-la. Enviaram-no imediatamene para combate. Feriu-se noutro local adverso, o denominado Neva Nickel. Era uma área pequena e circular. Se estivermos voltados de costas para o Lago Ladoga, está na margem esquerda do Rio Neva. As tropas alemãs tinham-se apossado de tudo excepto desse pequeno pedaço de terra. E os nossos soldados mantiveram esse pedaço durante todo o cerco, calculando que ele ia desempenhar uma função no avanço final. Os alemães tentaram apanhá-lo. Foi lançado uma enorme quantidade de bombas em cada metro quadrado daquele pedaço de turfa, mesmo segundo os padrões dessa guerra. Foi um massacre monstruoso. Mas de certeza que o Neva Nickel desempenhou um papel importante no final.

Pensa que pagámos um preço demasiado alto por esse bocado de terra?

Penso que há sempre muitos erros feitos durante a Guerra. É inevitável. Mas quando estamos a combater, se pensas que todos à tua volta estão sempre a cometer erros, nunca ganharás. Tens de assumir atitudes pragmáticas. E tens de pensar na vitória. E nessa altura, eles estavam a pensar na vitória.

O meu Pai foi gravemente ferido no “Nickel”. Uma vez, ele e outro soldado receberam ordens de capturar um prisioneiro que devia falar durante o interrogatório. Rastejaram até uma toca de raposa e estavam à espera, quando, de repente, surgiu um alemão. O alemão ficou tão surpreendido quanto eles. O alemão recuperou primeiro, tirou uma granada do bolso e atirou-a ao meu Pai e ao outro soldado, e foi calmamente embora. Realmente a vida é uma coisa tão simples.

Como sabe tudo isso? Disse que os seus pais não falavam muito sobre si.

Esta história foi-me contada pelo meu Pai. Provavelmente, o alemão estava convencido que tinha matado os russos. Mas o meu Pai sobreviveu, embora as suas pernas tivessem sido atingidas com espilhaços. Os nossos soldados tiraram-no de lá, passado algumas horas. E ninguém se voluntariou.

Para a linha da frente?

Adivinhou. O hospital mais próximo era na cidade e para chegar lá, tiveram de arrastá-lo durante todo o caminho, através do Neva. Todos sabiam que seria um suicídio, porque todos os centimetros do caminho eram atingidos. Claro que nenhum comandante tinha dado aquela ordem. E ninguém se voluntariou. O meu Pai já tinha perdido tanto sangue que era visível que iría morrer, se o deixassem lá.

Por coincidência, um soldado que por acaso era um nosso antigo vizinho, deparou com ele. Sem dizer uma palavra, percebeu a situação, carregou o meu Pai nas suas costas e levou-o através do Neva para o outro lado. Tornaram-se um alvo ideal, mas mesmo assim, sobreviveram. Este vizinho levou o meu Pai ao hospital, disse-lhe adeus,  e tornou para a frente. Ele disse ao meu Pai que não se tornariam a ver outra vez. Evidentemente, não acreditava que iria sobreviver no “Nickel” e pensavam que o meu Pai também não tinha essa oportunidade.

Ele estava  enganado?

Graças a Deus, estava. O meu Pai conseguiu sobreviver. Passou vários meses no hospital. A minha mãe encontrou-o. Ia vê-lo todos os dias. A minha Mãe estava quase morta. O meu Pai viu como ele estava enfraquecida e começou a dar-lhe a sua própria comida, às escondidas das enfermeiras. De facto, elas perceberam rapidamente. Os médicos perceberam que ele estava a desmaiar de fome. Quando perceberam a razão, deram-lhe um grande ‘sermão’ e não permitiram que a minha mãe o visse, durante uns tempos. O facto é que ambos sobreviveram. Só que o meu Pai ficou a coxear para toda a vida.

E o vizinho?

O vizinho também sobreviveu! Depois do cerco, foi para outra cidade. Ele e o meu Pai, encontraram-se em Leninegrado, por mero acaso, vinte anos depois. Podem imaginar?

Vera Dmitrievna Gurevich:
A mãe de Volodya's era uma pessoa muito carinhosa, generosa, a imagem da bondade. Não sei se ela terminou a quinta classe. Trabalhou duramente durante toda a vida. Era zeladora, fazia as entregas de uma padaria à noite, lavava os tubos de ensaio de um laboratório. Penso que ela chegou msmo a trabalhar como guarda, num armazém, durante uma época.

O pai de Volodya trabalhava como fabricante de ferramentas numa fábrica. Era muito apreciado por ser um trabalhador apto e de boa vontade. A propósito, ele não tinha pensão de deficiência, embora uma das suas pernas estivesse, efectivamente, aleijada. Em casa, era ele que cozinhava habitualmente. Costumava fazer um aspic (geleia de carne) maravilhoso. Recordamos a geleia de Putin até hoje. Ninguém fazia geleia como ele.
 ......
Depois da Guerra, o meu Pai foi desmobilizado e começou a trabalhar  como trabalhador qualificado, na Fábrica de Automóveis e Comboios Yegorov. Há uma pequena placa em cada carruagem de metro que diz, “Esta carruagem nr tal e tal, foi fabricada na Fábrica de Carros e Comboio Yegorov.”

A fábrica concedeu ao meu Pai, um quarto, num apartamento comunal, num edifício típico de St. Petersburg, na Alameda Bascov, no centro da cidade. Tinha um respiradouro para um pátio, e os meus pais viviam no quinto andar. Não havia elevador.

Antes da Guerra, os meus pais tinham tido a metade de uma casa, em Peterhof. Nessa época, tinham muito orgulho no seu nível de vida. Por isso, viver num apartamento foi dar um passo atrás.

Vera Dmitrievna Gurevich:
Tinham um apartamento horroroso. Era comunal, sem os requisitos necessários. Não havia água quente, nem chuveiro. O wc era horrível. Estava virado para o patamar da escada. Era tão frio, medonho e a escada tinha um corrimão de metal gelado. As escadas não eram seguras, havia lacunas em todos os lugares.
…...
Aí, no patamar das escadas, aprendi uma lição curta e duradoura sobre o significado da palavra ‘encurralado’. Havia inúmeras ratazanas na entrada. Os meus amigos e eu, costumávamos persegui-las com paus. Uma vez, encontrei uma ratazana enorme e fui atrás dela até à entrada do apartamento e encurralei-a num canto. Ela não tinha para onde fugir. De repente, deu meia volta e atirou-se a mim. Fiquei surpreendido e assustado. Agora a ratazana estava a encurralar-me. Saltei através do patamar e corri escadas abaixo. Felizmente, fui um pouco mais rápido e consegui fechar a porta mesmo no nariz dela.

Vera Dmitrievna Gurevich:
Praticamente não havia cozinha. Era um canto quadrado, escuro e sem janelas. Num lado tinha um fogão a gás e uma banca no outro. Não havia espaço para poder circular. 

Ao lado dessa presumível cozinha viviam os vizinhos, uma família de três pessoas. E os outros vizinhos, um casal de meia idade, viviam na porta a seguir. O apartamento era comunal.  Os Putin estavam reduzidos a um quarto. Pelos padrões dessa época, era aceitável, porque media 20 metros quadrados.
....
Uma família judia, um casal idoso e a filha, Hava, viviam no nosso apartamento comunal. Hava era uma mulher feita, mas como os adultos costumam dizer, a sua vida não tinha corrido bem. Nunca casou e ainda vivia com os pais.

O pai era alfaiate e, embora parecesse muito idoso, trabalhava na sua máquina de costura dias a fio. Eram judeus religiosos. Não trabalhavam no Sabbath, e o ancião recitava o Talmud. Uma vez, não consegui aguentar e perguntei-lhe o que estava a recitar. Ele explicou-me o que era o Talmud e perdi imediatamente o interesse.

Como é frequente num apartmento comunal, as pessoas de vez em quando discordavam. Eu queria sempre defender os meus pais e falava em seu nome. Devo explicar que me dava muito bem com esse casal idoso e brincava muitas vezes, no lado do apartamento que lhes pertencia. Bom, um dia, quando eles estavam a altercar com os meus pais, intrometi-me. Os meus pais ficaram furiosos. A reacção deles foi um choque enorme para mim; era incompreensível. Eu estava do lado deles e eles disseram-me: “Mete-te na tua vida!” Por quê? Simplesmente não conseguia compreender. Mais tarde, compreendi que os meus pais consideravam a minha boa relação com o casal idoso e a afeição deles por mim muito mais importante que esses pequenas brigas da cozinha.

Depois deste incidente, nunca mais me envolvi em brigas de cozinha. Logo que eles começavam a discutir, ia para o nosso quarto ou para o quarto dos idosos. Não me dizia respeito.

Também havia outros pensionistas a viver no nosso apartamento, embora não estivessem lá muito tempo. Tiveram a ver com o meu baptismo. Baba Anya era religiosa e costumava ir à igreja. Quando nasci, ela e a minha mãe baptizaram-me. Mantiveram-no em segredo do meu Pai, que era membro do partido e secretário da organização do partido, na sua fábrica.

Muitos anos mais tarde, em 1993, quando trabalhei no Conselho Municipal de Leninegrado, fui a Israel como parte de uma delegação oficial. A minha Mãe deu-me a minha cruz de baptismo para ser abençoada no Santo Sepulcro. Fiz como ela me pediu e coloquei a cruz à volta do pescoço. Nunca mais a tirei desde então.

A seguir: 

PARTE 2


O ALUNO

Saturday, April 7, 2018

Excerto do discurso pronunciado por Vladimir Putin, em 1 de Março, referente à Defesa

 


Excerto do discurso pronunciado por Vladimir Putin, em 1 de Março, referente à Defesa


Presidential Address to the Federal Assembly.




Presidente da Rússia, Vladimir Putin: 


.....   Agora, refiro a questão mais importante, a Defesa.
Falarei sobre os sistemas mais recentes das armas estratégicas russas que estamos a criar em resposta à retirada unilateral dos Estados Unidos da América do Tratado de Mísseis Anti-balísticos e à colocação efectiva dos seus sistemas de defesa anti-mísseis, não só nos EUA, como também para além das suas fronteiras nacionais.
Gostaria de fazer uma curta viagem ao passado recente.
Em 2000, os EUA anunciaram a sua retirada do Tratado de Mísseis Anti-balísticos. A Rússia estava categoricamente contra essa decisão. Considerávamos o Tratado ABM soviético-americano, assinado em 1972, como sendo a pedra angular do sistema de segurança internacional. De acordo com este tratado, as partes tinham o direito de implantar sistemas de defesa de mísseis balísticos, apenas, numa das suas regiões. A Rússia distribuiu esses mesmos sistemas à volta de Moscovo e os EUA, ao redor da sua base terrestre ICBM, situada em Grand Forks.
Juntamente com o Tratado de Redução de Armas Estratégicas, o Tratado ABM não só criou uma atmosfera de confiança, mas também impediu que qualquer das partes utilizasse imprudentemente armas nucleares, o que teriam ameaçado a Humanidade, porque o número limitado de sistemas de defesa de mísseis balísticos tornavam o potencial agressor vulnerável  a um ataque, como resposta.
Fizemos o nosso melhor para dissuadir os americanos a não se retirarem do tratado. Foi tudo em vão. Os EUA saíram do tratado em 2002. Mesmo depois tentarmos desenvolver um diálogo construtivo com os americanos. Propusemos trabalhar juntos nesta área para aliviar a tensão e manter uma atmosfera de confiança. A certa altura, pensei que era possível um compromisso, mas tal não aconteceu. Todas as nossas propostas, absolutamente todas, foram rejeitadas. E depois informamos que teríamos de melhorar os nossos sistemas de ataque modernos, para salvaguardar a nossa segurança. Como resposta, os EUA disseram que não estão a criar um sistema BMD global contra a Rússia, que são livres de fazer o que quiserem e que os EUA presumirão que as nossas acções não são conduzidas contra eles.
As razões por trás desta posição são óbvias. Após o colapso da URSS, a Rússia, que era conhecida como União Soviética ou Rússia soviética, no estrangeiro, perdeu 23,8 % do seu território nacional, 48,5 % da população, 41% do PIB, 39,4 % do seu potencial industrial (quase metade do nosso potencial, gostaria de salientar), bem como 44,6% de sua capacidade militar devido à divisão das Forças Armadas Soviéticas entre as antigas repúblicas soviéticas. O equipamento militar do exército russo estava a tornar-se obsoleto e as Forças Armadas estavam num estado lamentável. Uma guerra civil devastava o Cáucaso, e os inspectores norte-americanos supervisionavam o funcionamento de nossas principais usinas de enriquecimento de urânio.
Durante um certo tempo, a questão não era saber se seríamos capazes de desenvolver um sistema de armas estratégicas - alguns interrogavam-se, se o nosso país poderia mesmo armazenar e manter com segurança, as armas nucleares que herdamos após o colapso da URSS. A Rússia tinha dívidas pendentes, a economia não podia funcionar sem empréstimos do FMI e do Banco Mundial; a esfera social era impossível de sustentar.
Aparentemente, de acordo com a perspectiva histórica previsível, os nossos parceiros tinham a impressão de que seria impossível ao nosso país, reabilitar a economia, a indústria em geral, a indústria da Defesa e das Forças Armadas, a níveis capazes de apoiar o potencial estratégico necessário. E se for esse o caso, não há nenhum ponto de ligação com a opinião da Rússia, de que é necessário continuar com a vantagem militar unilateral, a fim de, no futuro, ditar as condições em todas as esferas.
Basicamente, esta posição, esta lógica, a julgar pelas realidades daquele período, é compreensível e nós somos os culpados. Em todos estes anos, durante um período de 15 anos, desde a retirada dos Estados Unidos do Tratado dos Mísseis Anti-balísticos, tentámos, constantemente, por meio de conversações sérias,  retomar as negociações com o lado americano, a fim de alcançar acordos na esfera da estabilidade estratégica.
Conseguimos alcançar alguns desses objectivos. Em 2010, a Rússia e os EUA assinaram o Novo Tratado START, abrangendo medidas para a redução e limitação de armas ofensivas estratégicas. No entanto, à luz dos planos para construir um sistema global de mísseis anti-balísticos, que ainda estão a ser realizados hoje, todos os acordos assinados no âmbito do Novo START, estão a ser lentamente desvalorizados, porque, enquanto o número de transportadores e armas está  a ser reduzido, uma das partes, ou seja, os EUA, estão a permitir um crescimento constante e descontrolado do número de mísseis anti-balísticos, melhorando a sua qualidade e criando novas áreas de lançamento de mísseis. Se não fizermos alguma coisa, eventualmente, isso resultará na desvalorização completa do potencial nuclear da Rússia. O que significa, simplesmente, que todos os nossos mísseis poderiam ser interceptados.
Apesar dos inúmeros protestos e súplicas, a máquina americana foi colocada em movimento, a correia de transporte está a avançar. Existem novos sistemas de defesa anti-míssil instalados no Alasca e na Califórnia; como resultado da expansão da NATO para leste, foram criadas duas novas áreas de defesa de mísseis na Europa Ocidental: uma já foi criada na Roménia, enquanto a fixação do sistema na Polónia está agora quase completa. O seu conjunto aumentará; serão criadas novas áreas de lançamento no Japão e na Coreia do Sul. O sistema global de defesa anti-mísseis dos EUA,  também inclui cinco navios cruzadores e 30 destroyers, que, tanto quanto sabemos, foram colocados em regiões próximas das fronteiras russas. Não estou a exagerar, de modo algum; e este trabalho prossegue rapidamente.
Assim, o que fizemos, além de protestar e avisar? Como é que a Rússia irá responder a este desafio? É desta maneira.
Durante todos estes anos desde a retirada unilateral dos EUA do Tratado ABM, trabalhámos intensamente em equipamentos e armas avançadas, o que nos permitiu conseguir um avanço no desenvolvimento de novos modelos de armas estratégicas.
Deixem-me recordar que os Estados Unidos estão a criar um sistema global de defesa de mísseis, principalmente, para combater armas estratégicas que seguem trajectórias balísticas. Essas armas formam a espinha dorsal das nossas forças de dissuasão nuclear, assim como as dos outros membros do clube nuclear.
Como tal, a Rússia desenvolveu e trabalha continuamente para aperfeiçoar sistemas, altamente eficazes, a preços moderados, para ser bem sucedida na defesa contra mísseis. Esses sistemas estão instalados em todos os nossos complexos de mísseis balísticos intercontinentais.
Além disso, iniciamos o desenvolvimento de mísseis da próxima geração. Por exemplo, o Ministério da Defesa e as empresas de mísseis e da indústria aeroespacial estão em fase activa para testar um novo sistema de mísseis com um míssil intercontinental pesado. Chamamos-lhe Sarmat.
O Sarmat substituirá o sistema Voevoda, fabricado na URSS. A sua imensa potência foi universalmente reconhecida. Os nossos colegas estrangeiros até lhe deram um nome bastante ameaçador.
Dito isto, as capacidades do míssil Sarmat são muito maiores. Com mais de 200 toneladas, apresenta uma fase de impulso curta, o que torna mais difícil a intercepção de sistemas de defesa anti-míssil. O alcance do novo míssil pesado, o número e o poder dos seus blocos de combate é maior do que o de Voevoda. O Sarmat estará equipado com uma ampla gama de ogivas nucleares poderosas, incluindo ogivas hipersónicas e os meios mais modernos de escapar à defesa contra mísseis. O alto grau de protecção dos lançadores de mísseis e as capacidades energéticas significativas que o sistema oferece, permitirão usá-lo em todas as condições.
Podem mostrar o vídeo.
(O video é exibido)
O alcance da Voevoda é de 11 000 km, enquanto o Sarmat praticamente não possui restrições de alcance.
Como os videoclips mostram, o Sarmat pode atacar alvos seguindo trajectos sobre os pólos Norte e Sul.
Sarmat é um míssil formidável e, devido às suas características, não é perturbado até mesmo pelos sistemas de defesa de mísseis mais avançados.
Mas não ficamos por aqui. Começámos a desenvolver novos tipos de armas estratégicas que não usam trajetórias balísticas quando se aproximam de um alvo e, portanto, os sistemas de defesa contra mísseis são inúteis contra eles, absolutamente inúteis.
Permitam-me desenvolver um pouco mais, a informação sobre estas armas.
As armas avançadas da Rússia baseiam-se nas realizações únicas e inovadoras dos nossos cientistas, designers e engenheiros. Um deles é uma unidade de energia nuclear de pequena escala que pode ser instalada num míssil como o nosso mais recente míssil lançado pelo ar, X-101 ou pelo míssil americano Tomahawk - um tipo de missil semelhante, mas com uma faixa de alcance dezenas de vezes maior, dezenas, basicamente, um alcance ilimitado. É um míssil furtivo de vôo a baixa altitude, que transporta uma ogiva nuclear, com quase um alcance ilimitado, trajectória imprevisível e habilidade para ultrapassar barreiras de intercepção. É invencível contra todos os sistemas existentes e futuros de defesa contra mísseis, e de defesa anti-aérea. Repetirei esta afirmação várias vezes, hoje.
No final de 2017, a Rússia lançou com sucesso o seu mais recente míssil de energia nuclear no campo de treinamento Central. Durante o seu voo, o motor movido a energia nuclear alcançou a capacidade com que foi projectado e forneceu a propulsão necessária.
Agora que os testes de lançamento de mísseis e os testes no solo foram bem sucedidos, podemos começar a desenvolver um tipo completamente novo de arma, um sistema estratégico de armas nucleares com um míssil movido a energia nuclear.
Exibam o vídeo, por favor.
(O video é exibido.)
Podem ver como o míssil ultrapassa os interceptores. Como o alcance é ilimitado, o míssil pode manobrar o tempo que for necessário.
Sem dúvida, como podem compreender, nenhum outro país desenvolveu nada assim. Haverá algo semelhante um dia, mas, nesse momento, os nossos técnicos terão qualquer coisa ainda melhor.
Todos sabemos que o design e desenvolvimento de sistemas de armas não tripulados é outra tendência comum no mundo. No que diz respeito à Rússia, desenvolvemos veículos submersíveis não tripulados que se podem mover em grandes profundidades (eu diria, em profundidades extremas) intercontinentalmente, a uma velocidade várias vezes superior à velocidade dos submarinos, torpedos de tecnologia de ponta e todos os tipos de navios de superfície, incluindo alguns dos mais rápidos. É realmente fantástico. São silenciosos, altamente manobráveis ​​e quase não têm vulnerabilidades para o inimigo explorar. Simplesmente, não há nada no mundo capaz de opôr-se a eles.
Os veículos subaquáticos não tripulados podem transportar ogivas convencionais ou nucleares, o que lhes permite envolver vários alvos, incluindo grupos de aviões, fortificações costeiras e infra-estruturas.
Em Dezembro de 2017, uma unidade de energia nuclear inovadora para este veículo subaquático não tripulado completou um ciclo de teste que durou muitos anos. A unidade de energia nuclear é única para o seu tamanho pequeno, oferecendo uma incrível relação peso-potência. É cem vezes menor do que as unidades que alimentam os submarinos modernos, mas ainda é mais poderosa e pode mudar para o modo de combate, ou seja, atingir a capacidade máxima 200 vezes mais rapidamente.
Os testes que foram conduzidos permitiram que começássemos a desenvolver um novo tipo de arma estratégica que levará munições nucleares maciças.
Por favor, exiba o vídeo.
(Reprodução do vídeo.)
A propósito, ainda temos de escolher nomes para estas duas novas armas estratégicas, o míssil de cruzeiro de alcance global e o veículo subaquático não tripulado. Estamos a aguardar as sugestões do Ministério da Defesa.
Os países com alto potencial de pesquisa e tecnologia avançada são conhecidos por desenvolver activamente as chamadas armas hipersónicas. A velocidade do som é, geralmente, medida em números de Mach em homenagem ao cientista austríaco Ernst Mach, conhecido pela sua pesquisa neste campo. Um Mach é igual a 1.062 quilómetros por hora a uma altitude de 11 quilómetros. A velocidade do som é Mach 1, as velocidades entre Mach 1 e Mach 5 são chamadas de supersónicas, e o hipersónico está acima de Mach 5. É claro que esse tipo de arma oferece vantagens substanciais num conflito armado. Os especialistas militares acreditam que será extremamente poderoso e que sua velocidade o torna invulnerável aos sistemas actuais de mísseis e defesa aérea, visto que os mísseis interceptores são simplesmente colocados e não são suficientemente rápidos. A este respeito, é bem compreensível porque motivo os exércitos líderes do mundo, procuram possuir uma arma tão ideal.
Amigos, a Rússia já tem essa arma.
A etapa mais importante no desenvolvimento dos sistemas de armas modernos foi a criação de um sistema de mísseis de aviões hipersónicos, de alta precisão; como já sabem, certamente, é  único no mundo. Os testes foram concluídos com êxito e, além disso, em 1 de Dezembro do ano passado, esses sistemas iniciaram o seu serviço de teste nos aeródromos do Distrito Militar do Sul.
As características de vôo únicas do avião transportador de alta velocidade permitem que o míssil seja entregue no ponto de descarga em poucos minutos. O míssil, voando a uma velocidade hipersónica, 10 vezes mais rápido do que a velocidade do som, também pode manobrar em todas as fases da trajectória do seu voo, o que também permite ultrapassar todas as formas existentes, penso eu, de sistemas de detecção de aviões e mísseis, atirando ogivas nucleares e convencionais numa faixa de mais de 2.000 quilómetros. Denominamos esse sistema, Kinzhal (Dagger).
O vídeo, por favor.
(Reprodução do vídeo.)
Mas não é tudo o que tenho para dizer.
Uma verdadeira descoberta tecnológica é o desenvolvimento de um sistema de mísseis estratégicos, fundamentalmente, com novos equipamentos de combate - uma unidade de asa deslizante, que também foi testada com sucesso.
Direi, mais uma vez, o que dissemos repetidamente aos nossos parceiros americanos e europeus que são membros da NATO: faremos os esforços necessários para neutralizar as ameaças colocadas pela introdução do sistema global de defesa anti-mísseis dos EUA. Mencionámo-lo durante as conversações, e até mesmo, publicamente. Em 2004, após os exercícios das forças nucleares estratégicas, quando o sistema foi testado pela primeira vez, disse o seguinte, numa reunião com a imprensa (é embaraçoso citar-me, mas é que é oportuno dizer aqui) :
Então, eu disse: "À medida que outros países aumentam o número e a qualidade das suas armas e do seu potencial militar, a Rússia também precisará de garantir a posse de armas e de tecnologia de nova geração.
A este respeito, tenho o prazer de informar-vos que, as experiências concluídas com êxito durante estes exercícios,  permitem-nos confirmar que, num futuro próximo, as Forças Armadas da Rússia, as Forças Estratégicas de Mísseis, receberão novos sistemas de armas recentes de velocidade hipersónica e de alta precisão que podem atingir alvos a uma distância intercontinental e podem ajustar a altitude e o curso enquanto viajam. Esta afirmação  é  muito significativa porque nenhum país do mundo, neste momento, tem tais armas no seu arsenal militar.” Fim da citação.
Claro, cada palavra tem um significado, porque estamos a falar sobre a possibilidade de ignorar limites de intercepção. Por que é que fizemos  tudo isto? Por que é que falámos sobre isto? Como podem ver, não ocultamos os nossos planos e falamos abertamente sobre eles, principalmente para encorajar os nossos parceiros a ter conversações. Deixem-me repetir, isto aconteceu em 2004. Na verdade, é surpreendente que, apesar de todos os problemas com a economia, as finanças e o sector da defesa, a Rússia permaneceu como uma grande potência nuclear. Não, ninguém realmente queria falar connosco sobre o cerne da questão e ninguém nos queria ouvir. Então ouçam agora.
Ao contrário dos tipos existentes de equipamentos de combate, este sistema é capaz de vôos intercontinentais a velocidades supersónicas que excedem a velocidade  Mach 20.
Como disse em 2004, ao deslocar-se para o seu alvo, o bloco de deslizamento dos mísseis de cruzeiro, envolve manobras intensivas - tanto laterais (durante vários milhares quilómetros), como verticais. É esta característica que o torna absolutamente invulnerável para qualquer sistema de defesa de ar ou mísseis. O uso de novos materiais compósitos permitiu que o bloco de deslizamento do míssil de cruzeiro fizesse um voo guiado de longa distância praticamente em condições de formação de plasma. Voa para o seu alvo como um meteorito, como uma bola de fogo. A temperatura na sua superfície atinge 1.600-2.000 graus Celsius, mas o bloco de cruzeiro é guiado de forma confiável.
Exibam o vídeo, por favor.
(O video é reproduzido).
Por razões óbvias, não podemos mostrar a aparência externa deste sistema aqui. Isto ainda é muito importante. Espero que todos compreendam. Mas deixem-me assegurar-vos que temos tudo isto e está a funcionar muito bem. Além disso, as empresas industriais russas aventuraram-se a desenvolver  um novo tipo de arma estratégica. Designámo-la como Avangard.
Estamos bem cientes de que vários outros países estão a desenvolver armas avançadas com novas propriedades físicas. Temos todos os motivos para acreditar que também estamos um passo a frente - a qualquer custo, nas áreas mais essenciais.
Conseguimos progressos significativos nas armas laser. Não é apenas mais um conceito ou mais um plano. Nem está mesmo nos primeiras fases de produção. Desde o ano passado,as nossas tropas foram armadas com armas laser.
Não quero revelar mais detalhes. Ainda não é o momento apropriado. Mas os especialistas compreenderão que, com essas armas, a capacidade de defesa da Rússia se multiplicou.
Aqui está outro pequeno vídeo.
(Reprodução do vídeo.)
Os interessados ​​em equipamentos militares estão convidados a sugerir um nome para este novo armamento, este sistema de ponta.

Claro que vamos aperfeiçoar esta tecnologia de ponta. Obviamente, há muito mais em desenvolvimento do que mencionei hoje. Mas, por agora, é suficiente.

Quero salientar especificamente que as armas estratégicas recentemente desenvolvidas - de facto, os novos tipos de armas estratégicas - não são o resultado de algo que foi deixado pela União Soviética. É evidente que confiamos nalgumas ideias dos nossos engenhosos predecessores. Mas tudo o que descrevi hoje, é o resultado dos anos recentes, produto de dezenas de organizações de pesquisa, gabinetes de design e de institutos.

Milhares, literalmente, milhares de especialistas, cientistas, designers, engenheiros, trabalhadores empenhados e talentosos, trabalham há anos silenciosamente, humildes e desinteressadamente, com total dedicação. Existem muitos jovens profissionais entre eles. São nossos verdadeiros heróis, juntamente com os nossos militares que demonstraram as melhores qualidades do exército russo em combate. Quero abordar cada um deles agora mesmo e dizer que haverá absolutamente prémios, condecorações e títulos honoríficos, mas, porque conheci muitos de vós pessoalmente, muitas vezes, sei que não são motivados pelas condecorações. Que para vós, o mais importante, é garantir de forma confiável, a segurança do nosso país e do nosso povo. Na qualidade de Presidente e em nome do povo russo, quero agradecer-vos muito pelo vosso trabalho árduo e pelos seus resultados. O nosso país precisa tanto deles.

Como já mencionei, todos os produtos militares futuros são baseados em descobertas notáveis ​​que podem, devem e serão usadas ​​nos sectores civis de alta tecnologia. Gostaria de salientar que apenas um país com o mais alto nível de pesquisa fundamental e de educação, desenvolvimento de pesquisa, tecnologia, infra-estrutura industrial e recursos humanos pode reproduzir com sucesso, armas exclusivas e complexas deste tipo. Podeis ver que a Rússia tem todos estes recursos.

Vamos expandir este potencial e concentrarmo-nos a cumprir os objectivos ambiciosos que nosso país estabeleceu em termos de desenvolvimento económico, social e de infra-estrutura. A defesa efectiva servirá como garantia do desenvolvimento da Rússia, a longo prazo.

Deixem-me reiterar que cada um dos sistemas de armamento que referi, é de importância única. Mais importante, ainda, é que juntando todas estas descobertas, o Ministério da Defesa e o Estado Maior da Defesa desenvolverão um sistema de defesa abrangente, no qual cada peça de equipamento militar novo receberá um papel apropriado. Além das armas estratégicas que estão actualmente em alerta de combate e que beneficiam de actualizações regulares, a Rússia terá uma capacidade de defesa que garante a sua segurança a longo prazo.

Claro que há muitas coisas que temos de fazer em termos de construção militar, mas há algo que já é evidente: a Rússia possui um exército moderno de alta tecnologia que é bastante compacto, dado o tamanho do território, centrado no corpo de oficiais, que são dedicados ao nosso país e que estão prontos para sacrificar seja o for pelo nosso povo. Mais cedo ou mais tarde, outros exércitos também terão tecnologia e armas, até mais avançadas. Mas isso não nos preocupa, pois que já as temos e teremos ainda melhores armamentos no futuro. O que importa é que eles nunca terão pessoas ou oficiais como o piloto russo Major Roman Filipov.

Espero que tudo o que foi dito hoje faça com que qualquer agressor potencial pense duas vezes, pois que os passos hostis contra a Rússia, como a implantação de defesas de mísseis e a aproximação da infra-estrutura da NATO para junto da fronteira russa, tornam-se ineficazes em termos militares e implicam custos injustificados, tornando-as inúteis para os que estão a promover essas iniciativas.

Era nosso dever informar os nossos parceiros sobre o que disse hoje, aqui,  sob os compromissos internacionais que a Rússia assumiu. Quando chegar a hora, os especialistas do Ministério das Relações Exteriores e da Defesa terão muitas oportunidades para discutir todos estes assuntos com eles, se, naturalmente, os nossos parceiros assim o desejarem.

Pela minha parte, devo salientar que realizamos o trabalho de reforçar a capacidade de defesa da Rússia, dentro dos actuais acordos de controlo de armas; não estamos a violar nada. Devo dizer, especificamente, que a crescente força militar da Rússia não é uma ameaça para ninguém; nunca tivemos planos de usar esse potencial para fins ofensivos e, muito menos, agressivos.

Não estamos a ameaçar ninguém, não atacámos ninguém, nem tirámos nada de ninguém sob a ameaça das armas. Não precisamos de nada. Precisamente o contrário. Considero ser necessário realçar (e é muito importante) que o crescente poder militar da Rússia é uma garantia sólida para a paz global na medida em que este poder preserva e manterá a paridade estratégica e o equilíbrio de forças no mundo que, como é sabido, foi e continua a ser, um factor chave da segurança internacional, após a Segunda Guerra Mundial e até aos dias de hoje. 

E para aqueles que nos últimos 15 anos tentaram acelerar a corrida aos armamentos e procuraram obter uma vantagem unilateral contra a Rússia, que introduziram restrições e sanções ilegais do ponto de vista do Direito Internacional, que visam impedir o desenvolvimento de nossa nação, inclusive na área militar, vou dizer o seguinte: tudo o que tentaram evitar por meio dessa política já aconteceu. Ninguém conseguiu prejudicar a Rússia.

Hoje, temos de estar cientes desta realidade e ter a certeza de que tudo o que eu disse hoje não é bluff - e não é uma armadilha, acreditem-me -  pensem sobre o que acabo de dizer e não tenham em conta os que vivem no passado e não conseguem para olhar para o futuro, para parar de balouçar o barco em que estamos todos e que é chamado Terra.

Neste contexto, gostaria de observar o seguinte: Estamos muito preocupados com certas disposições da revisão da Nuclear Posture Review, que expandem as oportunidades de reduzir e restringem o limiar do uso de armas nucleares. Por trás das portas fechadas, pode dizer-se qualquer coisa para acalmar alguém, mas lemos o que está lá escrito. E o que está lá escrito é que esta estratégia pode ser posta em acção em resposta a ataques de armas convencionais e até mesmo perante uma ameaça cibernética.

Devo notar que nossa doutrina militar diz que a Rússia reserva o direito de usar armas nucleares unicamente em resposta a um ataque nuclear ou a um ataque com outras armas de destruição em massa contra o país ou contra os seus aliados, ou um acto de agressão contra nós , usando armas convencionais que ameaçam a própria existência do Estado. Está tudo muito claro e específico.

Como tal, considero ser meu dever anunciar o seguinte: Qualquer uso de armas nucleares contra a Rússia ou contra os seus aliados - armas de curto, médio ou algum alcance - será considerado como um ataque nuclear a este país. A retaliação será imediata, com todas as consequências que lhe são inerentes.

Não deve haver dúvidas sobre o que acabo de mencionar. Não há necessidade de criar mais ameaças no mundo. Em vez disso, deixem-nos sentar à mesa das negociações e elaborar juntos, um novo e indispensável sistema de segurança internacional e de desenvolvimento sustentável para a civilização humana. Temos dito sempre isto mesmo. Todas estas propostas ainda são válidas. A Rússia está pronta para fazê-lo.

As nossas políticas nunca serão baseadas em reivindicações de excepcionalismo. Protegemos os nossos interesses e respeitamos os interesses dos outros países. Observamos o Direito Internacional e acreditamos no papel central e inviolável da ONU. Estes são os princípios e as abordagens que nos permitem construir relações fortes, amigáveis e iguais com a maioria absoluta dos países.

A nossa união estratégica abrangente com a República Popular da China é um exemplo. A Rússia e a Índia também gozam de um relacionamento privilegiado estratégico especial. As nossas relações com muitos outros países do mundo estão a entrar numa nova fase dinâmica.

A Rússia está largamente envolvida em organizações internacionais. Com nossos parceiros, estamos a promover associações e grupos como a CSTO, a Organização de Cooperação de Xangai e os BRICS. Estamos a promover uma agenda positiva nas Nações Unidas, G20 e APEC. Estamos interessados  numa cooperação normal e construtiva com os Estados Unidos e com a União Europeia. Esperamos que o bom senso vença e que os nossos parceiros optem, em conjunto, por um trabalho honesto e constante.

Mesmo que as nossas opiniões entrem em conflito em algumas questões, ainda permanecemos parceiros, porque devemos trabalhar juntos para responder aos desafios mais complexos, garantir a segurança global e construir o mundo do futuro, que está cada vez mais interligado, com processos de integração cada vez mais dinâmicos.

A Rússia e os seus parceiros na União Económica Eurasiática, procuram torná-la num grupo de integração globalmente competitivo. A agenda da EAEU inclui a construção de um mercado comum de electricidade, petróleo, produtos petrolíferos e gás, harmonizando os mercados financeiros e ligando as nossas autoridades aduaneiras. Também continuaremos a trabalhar para obter uma parceria euro-asiática mais alargada.

Colegas, este é um período de viragem para o mundo inteiro e aqueles que estão dispostos e capazes de mudar, os que estão a tomar medidas e a avançar, irão assumir a liderança. A Rússia e seu povo expressaram essa vontade em cada momento decisivo da nossa História. Apenas em 30 anos, passamos por mudanças que demoraram séculos noutros países.

Continuaremos de forma confiável, o nosso próprio percurso, tal como sempre o fizemos. Vamos manter-nos juntos, como sempre temos feito. A nossa unidade é a fundação mais duradoura para o progresso futuro. Nos próximos anos, o nosso objectivo é fortalecer ainda mais essa unidade para que possamos ser uma equipa que compreenda que a mudança é necessária e que esteja pronta para dedicar a sua energia, conhecimento, experiência e talento para alcançar objectivos comuns.

Os desafios e os grandes objectivos dão um significado especial às nossas vidas. Devemos ser ousados ​​nos nossos planos e acções, manifestar responsabilidade e iniciativa, e tornarmo-nos mais fortes, o que significa ser útil às nossas famílias, às nossas crianças, a todo o país; mudando o mundo e o nosso país para melhor; e criando a Rússia com que todos sonhamos. Só então a próxima década e todo o século XXI, serão, indubitavelmente,  uma época de triunfos extraordinários para a Rússia e para o nosso êxito universal. Acredito que será assim.


Obrigado.

Tradutora: Maria Luísa de Vasconcellos


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